Artigo

Sexo e literatura

04 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel

Um dos temas mais antigos abordado pela literatura mundial é o sexo. Exemplos não faltam e vão desde uma narrativa que tenta criar tabus morais em torno da temática em milhares de páginas, como a Bíblia, passando por autores que transformam a união entre os corpos em algo rítmico e poético, como D.H. Lawrence e Flaubert, até os que descrevem o ato sexual em um estilo erótico e pornográfico, como Charles Bukowski e Nélson Rodrigues. Se me perguntarem de qual desses estilos ficcionais eu gosto mais, responderei sem hesitação: dos dois últimos. Deixo o primeiro para aqueles que têm preguiça de ir um pouco mais além e que querem viver assombrados pelos fantasmas da hipocrisia.

Lembro que o professor Jacques Wainberg teorizava nas aulas de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS sobre os lubrificantes sociais. Seriam temas que fazem com que pessoas desconhecidas iniciem conversas aleatórias: futebol, tempo, política, etc. Já o escritor Moacyr Scliar escreveu em "A língua de três pontas" que as conversas se tornam mais interessantes a partir do momento em que colocamos uma terceira pessoa na narrativa _ principalmente se for para falar mal dela. Eu diria que, se para as conversas os chamados lubrificantes sociais e a vulgarmente conhecida "fofoca" interessam, na literatura um dos pontos mais altos é o sexo.

O sexo na literatura pode estar acompanhado do sentimento que chamamos de amor ou paixão. É o que Flaubert faz em "Madame Bovary", é o que Fitzgerald faz em "O Grande Gatsby" e o que Lawrence faz em "O Amante de Lady Chatterley". Nos três casos o sexo surge da infidelidade feminina. Madame Bovary acha o marido um pateta e vai buscar satisfação física e emocional em casos extraconjugais. Já Gatsby corre atrás de uma mulher casada, que passa a viver uma dúvida sobre com quem ficar; e Lady Chatterley vive o dilema moral entre ficar com o marido tetraplégico ou largar tudo para viver com seu amante vigoroso que lhe proporciona momentos de loucura, prazer e paixão no meio das florestas inglesas do início do século XX. Autoras mulheres também trazem reflexões sobre o tema em suas obras: Chimamanda Ngozi Adichie traz várias cenas reflexivas sobre sexo em "Meio sol amarelo" e "Americanah". E Anaïs Nin e Hilda Hilst são peritas em abordar o tema _ com ou sem amor envolvido.

Aliás, nem todo o sexo é exatamente romantizado na literatura. Charles Bukowski, Gabriela Wiener, Pedro Juan Gutierrez, Henry Muller, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Georges Bataille, Caio Fernando Abreu e muitos outros criam cenas e mais cenas em que a entrega é prioritariamente carnal _ mesmo com alto nível de sentimentos pululando nas mentes e corpos dos envolvidos. Alguns retiram completamente o dilema moral cristão do complexo conceito de fidelidade (propriedade, exclusividade?) dos pensamentos de seus personagens. Bukowski, inclusive, escreveu "Mulheres" contando vários relacionamentos breves que teve em um determinado período da vida. A peruana Gabriela Wiener também colocou experiências pessoais em "Sexografias". Pedro Juan vendeu seu corpo em meio à miséria causada pelo bloqueio econômico à Cuba nos anos 1990. Era fazer sexo por dinheiro ou morrer de fome, tanto para homens quanto para mulheres. Essas histórias estão narradas, principalmente, em Trilogia Suja de Havana. Bataille mistura bebedeiras, surtos e filosofia com cenas de sexo, entregas e questionamentos na França mais contemporânea. Enfim, é muito mais fácil encontrar textos literários que tenham cenas de sexo do que narrativas sem citar relacionamentos e coitos.

O fato é que o sexo encanta a todos, não só pelo prazer proporcionado, pelos sonhos e desejos que ele acarreta no pré e pós, no fascínio corpóreo, mas também pelo seu mistério. Assim como acontece com a morte e com o espaço, ninguém sabe ao certo definir o que ocorre com nosso corpo e mente no momento apoteótico do orgasmo. Claro, cientificamente há descrições, relatórios e teorias, mas isso não me interessa. Quando o assunto é sexo eu fico mais com a prática, com os romances e com a poesia.

Um fim de semana de inverno orgástico e caliente a todos e todas.


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