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Sermão em palanque encanta porque não há escuta

26 de Janeiro de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Celina Brod, mestre e doutoranda em Filosofia Política, Ética pela UFPel

Falantes compulsivos. Anoréxicos de escuta. Tenho a sensação de que a escuta está em extinção. A fala é interrompida, cortada, esnobada e quando a escuta acontece é apenas porque o ouvinte quer ter sua vez de falar. Viciados em nosso próprio falatório, não suportamos deixar o outro ocupar espaço. Falar, falar, falar. Escutar que é bom, nada. Sabem aquelas conversas que se retiram da malha do tempo porque silenciamos nossos barulhos para escutar o universo alheio e depois, quando chega a nossa vez de falar, o mesmo recipiente silencioso está nos esperando? É dessas que temos fome; artigo de luxo, numa sociedade cheio de lixo e barulho.

Ouvir é diferente de escutar. Para ouvir basta ter orelhas que capturam os sons, escutar é mais sofisticado do que isso. Não é só segurar a língua ou não interromper por educação, tampouco fazer "aham, aham", ou, muito menos, adicionar, no final de cada uma das falas, um "eu também". Se alguém estiver lhe escutando, você perceberá na pessoa a ausência da ansiedade, notará o olhar instigado, não correndo para os lados buscando um julgamento para te encaixar ou um pitaco para dar. A escuta espera o pensamento se acomodar, respeitando as pequenas pausas que surgem antes de um dizer sincero e profundo. Aquele que escuta, lhe fará pequenas perguntas sobre o que foi dito para entender a história de um raciocínio por inteiro.

Agora, escutar é uma coisa, ficar mesmerizado pela fala é outra. A escuta está atenta ao uso das palavras e das emoções que elas transmitem e insistem. A escuta não está na expectativa por respostas, mas interessada na produção de um entendimento. Já a escuta magnetizada, que acompanha a oratória da persuasão, resulta do interesse escondido do falante: o convencimento, o desejo de ser bajulado e o encantamento da imaginação. Se na escuta o objetivo é a descoberta e a reflexão, na retórica carismática o propósito é influenciar, cativar e seduzir através da emoção.

O orador persuasivo, característica de líderes carismáticos, conta histórias pessoais para criar empatia, traz a seu primeiro nome como solução, enfatiza as perseguições que sofre para provar a grandeza que habita seus dons, a voz é entonada como pregação, as afirmações são exageradas, entre uma fala e outra um autoelogio escancarado com uma sutil ameaça embutida no final das frases: "eles que se prepararem". Os seguidores ficam satisfeitos ao escutá-lo, matam sua sede por vingança e o desejo de culpabilizar os oponentes. Na política, como observou Max Weber, o carisma é um dos meios pelo qual a autoridade para governar é conferida à figura de um líder.

Weber também alerta que políticos entorpecidos por convicção pessoal e destituídos de uma ética da responsabilidade, tão logo se sentem capazes de influenciar seguidores _ o "maquinário humano" usado para projetar sua convicção de justiça _ seu foco gravitacional será manter acessa a flama da convicção. De suas bocas vaidosas, tão desejantes por prestígio e poder, virá a seguinte mensagem: "O mundo é ignorante e mau, eu não; não sou responsável pelas consequências, outras pessoas são responsáveis ??e vou erradicar sua maldade e estupidez", escreve Weber. Já aqueles que conduzem a ação política através da ética da responsabilidade, mesmo que convictos, consideram as consequências das ações, ou seja, os meios, no lugar da temporária nobre intenção. Temporária porque depois da emoção, a vida comum diária entra em cena e os slogans se desmancham como chuva de verão.

A persuasão e a oratória são as ferramentas da política. Por isso, ganhar uma eleição não significa estar correto, populismos são a prova viva disso. Não tem outro jeito, é pela linguagem que expressamos nossas crenças, bom seria se eleitores soubessem que entre escutar e adular há uma enorme diferença, a mesma que existe entre um debate de ideias e um sermão de igreja.


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