Artigo

Seriedade para tratar do aquecimento global

14 de Agosto de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Bruno Palombini Gastal, bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS e mestrando em Globalização, Meio Ambiente e Mudança Social pela Universidade de Estocolmo


Nas últimas décadas, aprendemos a conviver com a presença constante do tema do aquecimento global nas notícias, em revistas científicas e em discussões políticas. A minha geração, particularmente, foi apresentada bastante cedo aos prognósticos assustadores em relação ao futuro: mares engolindo cidades e ursos polares definhando até a morte foram imagens que internalizamos quando crianças, as quais descreveriam o futuro - que cada vez mais é presente - caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam radicalmente reduzidas. Infelizmente, elas nem de longe resumem a gravidade do cenário de um mundo 4°C mais quente.

Paralelamente à emergência e à popularização desse tema, no entanto, assistimos também ao surgimento de seu rival: o chamado negacionismo climático, isto é, o discurso que nega a existência do aquecimento global ou que atribui sua causa a fatores naturais. Inicialmente silencioso e totalmente insignificante, desde a ascensão de Donald Trump e da "direita alternativa" nos EUA, o negacionismo se tornou um discurso preocupantemente popular, mimetizado no Brasil por Bolsonaro e os militares em seu governo.

Muitos veem com naturalidade esse fenômeno, insistindo que "há sempre que ouvir dois lados", e terminam por dar voz aos "negacionistas". O que alguns ignoram, infelizmente, é que simplesmente inexiste qualquer fundamento que embase a dúvida em relação ao aquecimento global e a contribuição da atividade humana para esse fenômeno.

Segundo um artigo recente de autoria de John Cook e outros 15 pesquisadores de algumas das mais reconhecidas universidades do mundo, estima-se um consenso de cerca de 97% de que o aquecimento global é real e causado de maneira significativa pela ação humana, considerando climatologistas que ativamente publicam em periódicos revisados por pares. Vale notar, ademais, que a proporção era maior entre aqueles cientistas e artigos de maior prestígio, e que o nível de consenso encontrado é equivalente ao relativo à contribuição do consumo de cigarro ao câncer de pulmão ou à existência de placas tectônicas.

É difícil entender como conseguiu se estabelecer, assim, essa atmosfera de falsa dúvida em relação ao aquecimento global, que possibilitou que o negacionismo climático passasse de teoria conspiratória a uma opinião vista como válida, à qual tem sido dado cada vez mais espaço. Assim como aqueles que menosprezam a pandemia, os que negam o aquecimento global o fazem como uma maneira desonesta de preservar interesses econômicos que são contraditórios com o bem-estar geral.

Enfim, é necessário responsabilidade e seriedade para tratar do aquecimento global, e tanto os meios de comunicação quanto os cidadãos comuns devem estar conscientes dessa realidade desconfortável: o aquecimento global está acontecendo, é causado pela atividade humana e trará consequências gravíssimas, além de imprevisíveis, para praticamente todo o mundo. Se não frearmos já a emissão de gases de efeito estufa podemos esperar o agravamento de tendências já perceptíveis causadas pelo aquecimento até aqui, tais como a desestabilização de regimes de chuvas, ocasionando enchentes e secas, o colapso de cardumes (comprometendo a atividade pesqueira) e uma recorrência cada vez maior de eventos climáticos extremos, tais como o ciclone-bomba que nos atingiu este ano.


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