Editorial

Seleção empolga, mas país se questiona: "Pra frente, Brasil!?"

O bordão acima, como bem sabem os mais velhos, tem história

24 de Junho de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

A desconfiança inicial que pairava sobre a Seleção montada por Luiz Felipe Scolari se desfez depois dos três primeiros jogos da Copa das Confederações. O Brasil, com Neymar inspirado e digno de estar no Barcelona, venceu. E mostrou que pode fazer frente à refinada Espanha, de Iniesta e Xavi, caso ambos cheguem à final. "Pra frente, Brasil!"

O bordão acima, como bem sabem os mais velhos, tem história. Muita história. Futebolística e política. A frase compõe verso da canção que acompanhou a Seleção Brasileira - do demitido técnico João Saldanha (por polêmica entre ele e o então presidente e general, Emílio Garrastazu Médici) e do recém-contratado Mário Jorge Lobo Zagallo - campeã do Mundial de 1970, no México. Era o tri. E o país vivia o "milagre econômico", segundo a concepção econômica dos militares. O time formado por Pelé, Rivelino, Jairzinho e outros craques, se tornou garoto-propaganda do regime. Um verdadeiro exemplo de sucesso brasileiro. Todos juntos iam. Ou não. Noventa milhões em ação.

Se há 43 anos o futebol serviu como distração para o povo e foi usado para distorcer e esconder a realidade dura vivida por muitos durante o governo civil-militar, em 2013 o futebol - ainda motivo de distração - potencializou a repercussão do descontentamento geral dos brasileiros com os rumos da nação. Os protestos tiveram maior alcance no mundo porque atrapalharam o clima de congraçamento da Copa das Confederações.

E os gastos com o futebol, com a Copa do Mundo de 2014, estão entre as principais reclamações dos manifestantes que tomaram as ruas do país na última semana. Na terça-feira, 18 de junho, o Ministério dos Transportes elevou a estimativa de gastos com o Mundial de R$ 25,5 bilhões para R$ 28 bilhões. Com este valor, seria possível erguer mais de 90 mil postos de saúde completamente equipados, contratar mais de dois milhões de professores ou construir 24 mil quilômetros de estradas asfaltadas. E o pior: o governo, que banca a maior parte dos gastos, afirmou que a estimativa deve subir ainda mais até 2014. Terrível, sobretudo quando colocado em perspectiva o nefasto histórico de corrupção e desvio de dinheiro em obras públicas no Brasil. Por enquanto, o Ministério Público está aí também para investigar. Mas pode ser que futuramente não esteja mais, em função da PEC 37, alvo de protestos.

Se a Seleção Brasileira empolga dentro de campo, o país parece não empolgar fora dele: baixo crescimento da economia, atendimento precário pelo Sistema Único de Saúde, o fantasma da inflação que bate à porta... Os protestos são uma esperança, quando não descambam para a violência. Cento e noventa milhões em ação têm força para mudar o que precisa ser mudado. Aos poucos, isso fica mais claro. "Pra frente, Brasil!" No campo e fora dele!


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