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Seja bem-vindo 2013!

O ano de 2012 deixa, em sua pisada, recordações as mais diversas

30 de Dezembro de 2012 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima, professor universitário aposentado

Os festejos natalinos já são lembranças. O ano de 2012 deixa, em sua pisada, recordações as mais diversas: momentos de euforia e de disforia, instantes de recato e de impudência; átimos de sujeição e de soberba. Sabendo que a verdadeira amizade é rara, ouso, pois, na esteira do tempo que se esvai, desenvolver algumas reflexões sobre o tema.

Vocábulos iguais têm conotações diversas conforme o texto ou a fala em que se insere. Sem resmoneios, a relevância do que afirmo é essencial. Para traduzir um vocábulo, urge examinar a composição na qual ele ocupa espaço ou ouvir aquele que o articula. De outro modo, passo a não compreendê-lo. A doutrina fundamental de Freud assim o quer. E seria suficiente para legitimar a teoria psicanalítica. Caso isso fosse pensável.

Todavia, muitos homens se fazem de surdos. Negam-se a ouvir. No mundo inquieto que envolve os seres humanos, onde a tecnologia impera e a ambição pelo ter ensandece a humanidade, raros nascem com semelhante aptidão. Ouvir com atenção é uma atitude de prodigalidade. É um talento que pode e demanda aprimoramento. É um comportamento que exige disciplina. Requer um silenciar transitório. Um calar temporário. Implica na abertura para ouvir, com especial atenção, o que outrem tem a expressar.

Ouvir é o distintivo do psicanalista. Outrossim, o é do vero amigo que, ao não forçar a sua presença física, ao não falar aquilo que não deve ser falado, oportuniza o robustecimento da amizade. O amigo manifesta-se na ética do restritivo, na sabedoria do conter-se. Assim sendo, amigo é de paz. Concórdia. Mansidão sem submissão. O seu modo de ser é capaz de atuar como moldura para novas relações sociais: pais e filhos, marido e mulher, irmão e irmão.

Em 430 a.C., na gloriosa Atenas, berço da civilização ocidental, certo filósofo grafou o que bem poderia ter sido grafado em pleno século 21: "Um bom amigo é o mais precioso de todos os bens. Está sempre pronto a ajudar. Há homens, porém, que investem toda a sua energia no cultivo de árvores, para colher frutos, e são negligentes com o amigo, o bem que mais frutifica".

O amigo enxerga e escuta o que somos incapazes de enxergar e escutar. Não precisa ser homem, basta ser humano. Basta ter sentimentos. Basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo, saber ouvir. Por isso, ele pode fazer por mim e por ti, caro leitor, aquilo que, muitas vezes, não sabemos ou não queremos fazer por nós mesmos. Como o analista, o amigo alumbra veredas. Sem vociferar, apontar novos carreiros, às vezes, até então impensáveis.

Ele é capaz de sustar o seu anseio para que o anelo do outro aconteça. Tem sede de aliança. Revela-se franca e naturalmente desinteressado nos casuais ganhos materiais que a amizade é capaz de amealhar. Permuta-os pelo robustecimento desta. Tem por meta a alegria do outro. Mas não deve ser baralhado com o comparte, que procura o proveito pessoal e se vincula a outrem em razão daquilo que quer atingir.

O liame da mera convivência é passageiro. Fugaz. O elo da amizade, se ela é sincera e recíproca, é perene. Eterno. O amor dos amigos jamais é de hoje. É para a vida inteira. Não busca a fama. Nem aspira a créditos. Tem sabor de eternidade. Quiçá, por isso, desde sempre, a amizade inspira escritores, que se questionam: como joeirar um amigo? Quais as particularidades de um amigo genuíno? O que se deve, se é que se o deva, ofertar-lhe? Os escritores - a reflexão ensinou-os! - que a amizade nasce de modo espontâneo. Natural. Tem mão dupla: a que vem e a que vai. Mas sabem também que ela somente dará os mais belos e sazonados frutos se for cuidadosa, seletiva e delicadamente cultivada.

Aos amigos, os de hoje e os de ontem, e a todos os leitores que me acompanham através das páginas do nosso DP, um único desejo: Feliz 2013!

 


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