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Segurança Pública dos horrores

12 de Junho de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Samuel Malafaia Rivero, pesquisador da Universidade Católica de Pelotas - Gesp/Gitep

Há pouco mais de um século, as cirurgias eram um show de horrores. Sem anestesia, a força bruta e a velocidade determinavam o nível de competência dos cirurgiões. Muito sangue, dor, altas taxas de mortalidade e muito pouca ciência. Algo que a historiadora Lindsey Fitzharris muito bem narra no seu trabalho recentemente traduzido para o português, Medicina dos horrores (2019).

Hoje em dia, em pleno século 21, podemos dizer que o campo da segurança pública encontra-se bastante próximo ao que era o da medicina no século 19. Muito sangue, muita dor, altas taxas de mortalidade e pouca ciência. O advérbio muito foi propositalmente suprimido, nesse caso, pois já podemos considerar que alguma ciência há no campo da segurança. Ainda que tímido e pouco difundido, o pensamento científico tem aos poucos se estabelecido no enfrentamento das questões de segurança.

Contudo, boa parte dessa ciência tem servido para demonstrar o quanto de sangue, dor e mortalidade ainda persistem nesse campo. Os últimos dados apresentados pelo Mapa da Violência, por exemplo, evidenciam que quase 60% dos óbitos de jovens entre 15 e 19 anos do sexo masculino são por homicídios. Os presídios permanecem como "casas da morte", onde espetáculos horrendos acontecem com absurda frequência. Em Manaus, no Amazonas, 55 presos morreram em apenas 2 dias, a maioria asfixiada ou por golpes de escovas de dentes.

Para enfrentar essa realidade e na falta de uma articulação e de uma estrutura que confira a solidez e a permanência de uma política de Estado, as políticas públicas de segurança seguem ao sabor dos governos, fragmentadas, impulsivas e com muito improviso. Para além do Sistema Único de Segurança Pública, criado somente no ano passado, é preciso que as responsabilidades dos entes federativos e os mecanismos adequados de financiamento sejam tão logo construídos. Tal qual as políticas de saúde, as de segurança precisam de permanência, investimento constante, planejamento estratégico, metas de médio e longo prazo, bem como precisam ser baseadas em evidências científicas.

Definir sobre a restrição de acesso às armas de fogo, assim como tomar ou não vacinas, não pode ser uma mera questão de opinião pessoal ou política. Da mesma forma, as políticas de drogas (liberação, criminalização, controle e enfrentamento) também precisam ser firmemente alicerçadas em conhecimento e evidências científicas.

É bem verdade que os recentes ventos não têm sido nada favoráveis para a afirmação da ciência na segurança pública. Cortes de verbas na educação. Censura de pesquisas que não se filiam a uma determinada opinião. Ataque a pesquisadores. É preciso que o que foi conquistado até aqui se afirme e resista, que a ciência seja reconhecida como um instrumental ponte e capaz de transformar o mundo, tal qual já fez e continua fazendo no campo da saúde. Só assim iremos avançar para a superação de uma segurança pública de horrores, onde ainda persiste muito sangue, dor e altas taxas de mortalidade.


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