Artigo

Schlee amazônico

15 de Abril de 2019 - 06h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental, Hospital Espírita
prosasousa@gmail.com

A vazão do Amazonas no lombo do Atlântico é da ordem de 200 mil metros cúbicos de água doce por segundo. Um discreto jato, dirá o impassível amigo, e de onde o oceano tirará seu sal, perguntará o incrédulo colega.

Pois o Schlee tem equivalente empuxo. Acaba de lançar-nos, qual nosso caudaloso rio, as mil páginas de seu Dicionário da cultura pampeana sul-rio-grandense, pela Fructos do Paiz, sua editora. Alma generosa, segue promovendo encontros - Porto Alegre, Pelotas, Jaguarão e quejandos - onde gira a gente presente em torno do mistério de como alguém pode construir tal volume, com seus estimados 15.000 verbetes e de forma autoral, na expressão de especialistas da obra schleeneana, acho eu que querendo dizer que o alemão aí dá instruções detalhadas de como viver no pampa, de cá e de lá, e ainda de como selecionar cavalos crioulos, a fazer inveja a veterinários. Mais, convida-nos a amar o pampa, mediante o descortinar dos passarinhos que aqui habitam, como a forneira “pássaro da família furnariídae (Furnarius rufus), também chamado joão-de-barro ou barreiro, de porte mediano (20cm), plumagem ferrugínea (mais clara por baixo), caminhar inconfundível (levanta muito os pés ao andar), abundante na campanha e muito conhecido como construtor de característico ninho de barro na forma de iglu (ou forno campeiro). E não confunda pampeano de boa cepa, forneira com forneirão, distinguindo-se este como também “da família furnariídea (Pseudoseisura lophotes), parecido com uma forneira grande, mas com topete (tem 23cm e é o maior de todos os furnarídeos), também chamado de coperete ou caserote - que vive em matos de espinilho e cujo ninho é uma grande bola de gravetos, acolchoada internamente com estrume”. Do lado de lá, se chama hornerón. Vai saber de pampa assim lá em Piratini.

Esses dias, codeando (não consta no Schlee) com Pablo Rodrigues, explicou-me ele que Guimarães Rosa terá dito que o desejo de todo escritor é fazer um dicionário. Acredito. Este Schlee, que ora folheamos, tem que ter sido um barato ao autor, esbanjando pampa, num pampa sem alambrados, fazendo-nos percorrê-lo com olhos e ouvidos e narizes mui abertos, para que nada nos escape desta terra em que vivemos, ou tal supomos. Este Schlee afasta-nos da insalubre possibilidade de nos tornarmos uns cagarolas (o mesmo que cagão, explica Schlee, medroso, covarde) diante do próprio terreiro, ou seja, quando não nos animamos nem a sair no pátio de casa.

Mas Schlee foi farto, profuso, lauto, abundante, amazônico, cavalar, cabal em seu amor pela vida e por Marlene. Pela vida, soube vivê-la até a última gota - “para que não, ao morrer, descobrir que não vivi”, como já pedira o poeta. Por Marlene, derramando-se de amor pela Rosenthal, pampa a fora, “de quem eu era namorado e gostosamente dependente”, desde que a conheceu ainda adolescente.

Há muita vida e muito amor e muito pampa neste Schlee das mil páginas.


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