Editorial

Saber a serventia

05 de Agosto de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

"Se a gente não sabe para que serve, a gente não valoriza." Essa afirmação, feita pela cientista social Elis Radmann, está na página 3 da edição de ontem do Diário Popular, em reportagem sobre o desconhecimento dos gaúchos sobre a eleição para o Senado. A diretora do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) refere-se nesta frase, especificamente, à democracia, tão atacada e criticada recentemente por líderes políticos brasileiros e também por parcela da população que, sob tal influência, se deixa levar por tais golpismos.

A matéria em que Elis faz tal avaliação traz os resultados de um levantamento feito pelo instituto em diferentes regiões do Rio Grande do Sul que mostra o quanto os gaúchos pouco sabem sobre o Senado. Mais do que não ter conhecimento sobre quantos senadores serão votados/eleitos em 2022 pelo Estado - 64,3% não faziam ideia -, a pesquisa constata ainda o desinteresse e afastamento dos cidadãos do trabalho feito naquela casa legislativa e por aqueles que a compõem. Ou seja, além de sequer lembrarem em quem votaram em 2018 - o que não surpreende, pois é fenômeno constatado há décadas no Brasil -, os eleitores não costumam acompanhar os assuntos discutidos no Senado e, pior, não sabem ao menos diferenciar as atribuições de um deputado e de um senador.

Em resumo, é possível constatar não apenas por esta pesquisa do IPO, mas também cruzando com informações de outras com conclusões no mesmo sentido, que fatia gigantesca do eleitorado deve ir às urnas sob um nível de alienação política alarmante. Afinal, como escolher bem os representantes da sociedade quando nem ao menos se sabe os deveres destes políticos, suas responsabilidades, possibilidades de atuação. Sem estes conhecimentos básicos, aumentam as chances de candidatos espertos e/ou desonestos abusarem da ingenuidade do eleitorado prometendo mundos e fundos. São justamente alguns destes que, uma vez eleitos, usam das estruturas públicas e dos poderes adquiridos para desacreditar instituições, desgastando a política e os parlamentos, estimulando o personalismo. Tudo o que democracias não precisam para se manterem fortes e garantidoras das condições de desenvolvimento.

É essencial que gaúchos e brasileiros se conectem verdadeiramente com a política, que vão muito adiante da simples escolha aleatória - ou iludida - de um candidato para o dia 2 de outubro. O pressionar dos números e do botão "confirma" na urna são apenas a primeira parte do direito/dever cidadão. É a partir daí que o envolvimento começa, com o acompanhamento e cobrança dos senadores, deputados, presidente, governador. Isso é democracia. E há de se estar atento à sua serventia.


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