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Relembrando a "Primavera Árabe"

20 de Julho de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

O século 21 já assistiu a uma grande golfada revolucionária de manifestações e protestos pró-democracia, quando a população de países árabes saiu às ruas para derrubar ditaduras ou reivindicar melhores condições sociais de vida. Como um rastilho de pólvora, uma série de protestos sociais espalhou-se pelo Egito, Barein, Tunísia, Líbia, Iêmen, Catar, Síria etc. Fatores estruturais e demográficos, aditados a condições de vida quase desumanas com elevado índice de desemprego, entranhadamente juvenil, foram causas primeiras da Primavera Árabe, ocorrida em 2011, às quais ainda se soma a existência de regimes políticos corruptos e autoritários, cujos descomedimentos foram revelados pelos vazamentos da WikiLeaks. 

Tais regimes, cuja origem se deve aos nacionalismos árabes desenvolvidos no período de 1950/1970 aos poucos foram se convertendo em governos repressores, que impediam uma oposição política articulada, provocadora de um vazio que vários movimentos islamistas mais ou menos extremistas souberam aproveitar. A ausência de liberdades, a elevada militarização dos países, a arbitrariedade e a parcialidade da justiça, que amparava a impunidade das forças de segurança para deter e prender os rebeldes, e a carência de infraestrutura em nações onde todo o benefício econômico vai parar nos bolsos de oligarquias corruptas desenharam um campo fértil para o conflito.

Durante os anos da Guerra Fria, esses regimes autoritários submeteram os interesses nacionais aos das superpotências americana e soviética, em disputa pela hegemonia mundial. A queda da União Soviética promoveria um amplo processo de globalização, que difundiu as ideias e o modo de vida ocidental e, por fim, a partir de 2008, favoreceu uma grande presença das redes sociais - Facebook, Twitter, YouTube -, para organizar e sensibilizar a população e a comunidade internacional em face das tentativas de repressão e censura na internet por parte dos Estados. Tudo isso contribuiria para que se instalasse uma abertura positiva nos países apontados.

A maioria dos participantes nas manifestações foi de jovens familiarizados com o uso da internet, que se diferenciavam das gerações anteriores por contar com educação básica, média e até universitária. A Primavera Árabe poderia ser considerada uma segunda rebelião árabe, herdeira do espírito de 1968, anticolonialista - voltada para o exterior - e antiautoritária - voltada para o interior -, que, então, não alcançara seus objetivos e que agora voltara a ressurgir, ainda que com sérias contradições. E, nesse sentido, ela se enquadra em movimentos mundiais de protestos como o da Grécia, em 2010/2011, o movimento 15-M, a mobilização estudantil chilena em 2011, as greves na China, as manifestações no Brasil em 2013 et cetera.

Um aspecto por demais relevante para explicar a razão pela qual a revolta eclodiu em 2011 foi a profunda crise econômica e financeira mundial, que afundou os países do norte da África em uma pobreza pungente, com o aumento abusivo do preço dos alimentos e de outros produtos básicos, os quais provocaram uma aguda crise de subsistência entre as populações mais desfavorecidas.


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