Artigo

Reflexões sobre o tempo de Deisê e Shirley

02 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Aqui nas aforas da cidade grande, longe daquele movimento de autos enfumaçando o ar quando não, com um desmiolado dentro a ensurdecer o mundo com a música alta do porta-malas, eu fico a me perguntar sobre o que é o tempo. Comento isso enquanto passo o mate para o meu compadre Mauro, da pulperia. Digo-lhe que não é sobre esse tempo que todos pensam conhecer, do frio, do calor, da chuva ou do estio. Ou mesmo do tempo das horas, esse que a gente vai contando no relógio ou ouvindo o cuco da sala.

Essa questão filosófica (ou será sobre a vida mesmo?) me veio no dia em que fui ao postinho consultar com a doutora Carolina. Até não fui por uma coisa séria, mas na idade que tenho, qualquer dorzinha estranha que dificulta as atividades da casa, requer uma consulta. Pode não ser nada, mas pode ser um aviso: "te cuida, meu velho, que tua hora vai chegar. Só não precisa ter pressa". E pressa é coisa que eu não tenho. O que eu não gosto é de perder tempo. Nem inventei essa frase. Faz tempo li no jornal e não a esqueci. Para exibir minha boa memória, quem falou isso de não ter pressa, mas não perder tempo, foi um escritor lá do outro lado do charco, o tal de José Saramago. Queria muito ter conhecido o vivente das letras que deu vida às palavras.

A comadre Marina, que estava na roda do mate, me disse que já tinha lido uns quatro livros do Saramago. Mas, bah! Pedi emprestado, sem perder tempo. Dona Maria, que sempre vai à pulperia para comprar amendoim doce para o Gonçalito, um rico de um guri, ouviu a conversa e acrescentou: "Ensaio sobre a cegueira e Memorial do convento, pra mim, são os melhores". Eu pareci um ignorante. Vou ter que ir à cidade e achar uma livraria no meio de tantas farmácias, postos de gasolina e templos evangélicos.

A cidade anda adoecida, sem vida e sem tempo. Bueno, pensei comigo mesmo, vou precisar de tempo e de organização. A questão não é a lonjura, mas o Onofre, meu pangaré, não é de galope nem de trote. Vai mansinho como quem usa a viagem e o tempo para admirar a paisagem. No dia em que tirei a manhã para ir tratar da saúde com a doutora Carolina, pensei se eu estaria perdendo ou ganhando tempo. Ou alongando o tempo. Na sala de espera, fiquei conversando com as duas comadres que cuidam da limpeza, Deisê e Shirley. As duas levantam sempre com os quero-queros para chegar ao postinho com tempo de deixar tudo brilhando antes dos primeiros pacientes. Charlamos sobre isso, desse turbilhão no peito e dessa agitação dos neurônios para compreender o tempo. Deisê, que veio lá do interior de Turuçu, disse, apoiada na vassoura, "que o tempo passava era mesmo na colônia, com o vento, a folha que se mexia, o cusco que cochilava. A cidade não tem tempo". Shirley mexeu os cabelos e fixou os olhos na janela do postinho que dá pra pracinha: "A gente vê o tempo nos mandinhos. O tempo junta, mas divide. Cada coisa tem seu tempo. O tempo não acaba". Para minha neta e sua namorada, que estudam na universidade, tempo e vida são a mesma coisa. Dizem elas que a gente é que faz o tempo, faz a hora. Deisê interrompeu meu devaneio: "O tempo caminha quando a gente para. Quando a gente corre, o tempo é que para". Shirley pigarreou e pediu licença para falar: "Sempre que fiz coisas para o meu marido, perdi minha vida e meu tempo. Agora que tô sem marido, desperdi a vida e ganhei tempo". Deisê deu uma risada e comentou com uma expressão de contentamento: "Quando eu surrei o meu marido depois que ele tentou se passar com a minha filha, eu ganhei vida e tempo". Foi muito bom ficar ouvindo as duas mulheres filosofando. Acho até que isso um dia podia virar uma peça de teatro. Doutora Carolina me chamou: "Como está o senhor? Pelo visto, vai viver muito tempo".


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