Editorial

Recado direto sobre prioridades

29 de Julho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Quinta-feira, 28 de julho, foi a data em que se celebrou o Dia do Agricultor. Cidadãos comuns, pessoas que vivem na cidade ou no campo e que se beneficiam do trabalho destas pessoas, em geral usam a data para reverenciar quem tem a honrosa - e árdua - tarefa de produzir os alimentos que chegam à mesa todos os dias. Em tempos de redes sociais, é o momento, por exemplo, de cumprimentar e reconhecer a atividade através de vídeos, textos e imagens. Nada mais natural e óbvio, portanto, que governos e governantes assim o façam. Porém, os tempos não têm sido óbvios no Brasil. Para marcar a data, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República optou por celebrar a data com uma imagem não de um produtor ou uma produtora rural plantando ou colhendo. A opção foi por atribuir aos agricultores a imagem de um homem armado.

Sabidamente, o atual governo tem por uma de suas principais bandeiras - e uma das poucas com que se movimenta com agilidade e eficiência invejáveis - a disseminação das armas. Pauta que, embora questionável, pode ser considerada legítima visto que há parcela considerável da sociedade que comunga do mesmo pensamento. Contudo, para tudo há ocasião e oportunidade adequada para debate ou divulgação de ideias. E, notadamente, estampar um homem armado no campo como símbolo da agricultura brasileira não é a forma adequada de reverência. Tanto que, diante da péssima repercussão e das críticas quase generalizadas, os perfis da Secom nas redes sociais apagaram o material.

A demanda pelo direito ao porte de armas na zona rural como um instrumento de defesa pessoal e patrimonial é reconhecida e um ponto relevante diante da insegurança ao qual permanecem expostos muitos dos produtores rurais. Várias já foram as ocorrências registradas nas páginas do Diário Popular e de tantos outros jornais em que famílias inteiras foram vítimas de violência e/ou tiveram roubados os bens adquiridos como fruto de muito trabalho. Contudo, nas entrelinhas, a mensagem passada pela comunicação oficial do governo federal foi uma espécie de incentivo à violência no campo. Um tiro no próprio pé rejeitado, sobretudo e inclusive, por entidades do agronegócio como a Associação Brasileira do Agronegócio, que classificou como algo que "envergonha o setor", e a Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio, que pediu reconhecimento dos agricultores de outra forma, pela atuação em produzir alimentos e saciar a fome.

Mesmo apagando a mensagem e, como de costume, não comentando as críticas, o Palácio do Planalto deu seu recado. Em pleno dia de celebrar aqueles que produzem o alimento, principal riqueza do campo, o governo optou pela ode à animosidade e confronto. Mais claro sobre suas prioridades, impossível.


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