Artigo

Quer ser meu amigo? Passa lá em casa

20 de Julho de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Na belíssima Bilbao, ao norte da Espanha, no Euskal Herria, do museu Guggenheim, localizado na Ría de Bilbao, do museu de Bellas Artes, no parque Doña Casilda, do Teatro Arriaga, do Palácio Eskalduna de Congressos e da Música, lembro de que as pessoas tinham o bom costume de ler enquanto estavam no ônibus, no metrô, no trem ou em um banco de praça. Os meios de transporte funcionavam tão bem que a gente sabia exatamente, por exemplo, o minuto em que o ônibus chegaria à parada, e quanto levaria para nos deixar no destino escolhido. Imagino que também por isso, os passageiros sabiam do tempo que tinham para ler um capítulo do livro, um poema ou um artigo do jornal enquanto viajavam pelas ruas e subterrâneos da cidade.

Nos anos em que morei na cidade basca, vi pouquíssima gente hipnotizada pelos celulares. Talvez porque há 12 anos, ainda não tínhamos Twitter, Instagram e WhatsApp. Hoje estes aplicativos nos consomem a vida e os encontros reais e parece que substituíram a literatura, a pesquisa, a conversa olho no olho e a informação jornalística.

Quem em um restaurante já não flagrou uma família inteira com os olhos fixos, cada qual em seu aparelho? Quando fui professor do curso de Educação Física da Unisinos, sempre junto às leituras obrigatórias de cada disciplina, eu solicitava a leitura de um romance. As turmas de expressão corporal e psicomotricidade leram Saramago, Ítalo Calvino, Clarice Lispector entre tantos bons autores. Ao final do semestre as turmas conversavam sobre a leitura. Poucos alunos deixavam de ler. Hoje, como seria? Ao tentar aplicar estratégia pedagógica semelhante nos meus primeiros anos de UFPel, dei com os burros n'água. Desta vez, pouquíssimos alunos leram. A diminuição de leitores e a falta de formação de novos acabaram se refletindo no mercado editorial e nas livrarias. Embora os brasileiros nunca tenham sido ávidos por leitura.

Pelotas é um bom exemplo dos caminhos equivocados que estamos traçando: proliferação descontrolada de farmácias e postos de gasolina e quase nenhuma livraria. Todavia, pensando como Poliana, para quem, embora tudo possa piorar, existem esperanças concretas aqui e ali se abrirmos os olhos. Não faz muito, Jarbas Tomaschewski lançou aqui na cidade o excelente livro Um conto Dois contos Descontos. O ala direita e jogador de tênis, jornalista e editor do DP, juntou nesse livro crônicas muito gostosas de ler.

Na apresentação, o autor já avisa os leitores: o livro é para fazer sorrir, para dar leveza à alma, isso que nos mantém de pé todos os dias. E é vero, a leitura é suave e deliciosa. Jarbas cria situações que ressignificam nosso cotidiano, com muito humor, indo do inusitado à paródia, à farsa, ao fantástico. Nas muitas crônicas, divididas em seis temas, lemos Como nossos velhos pais, quando parece que o único caminho é repetir os velhos, como já escreveu Belchior; ou o Sequestro, quando o amor é vizinho. O casal que decide dar um up na relação e libera geral, mas, sem o saber, fazem a troca com eles mesmos. Em A riqueza ao alcance de todos e em Estélio, meu candidato, nos vemos no espelho. A origem das espécies explica o filho pulando com os pés sujos no sofá novo da sala. 180 minutos é muito belo. Não deixe de ler. Talvez algum de nós descubra a cabeça velha que tem ao ler Cabeças velhas. Hummm. Onde anda o preconceito? Quem entre nós já não está farto da avalanche de coisas que nos oferecem na compra de um único objeto? Era tão simples ri desta situação. Em O Sofá triste, Jarbas arrebenta nosso coração de pai e mãe. A criação da rede antissocial, em Rumo a Forbes, é genial. Uma possibilidade bem-humorada de voltarmos a ser humanos. Tipo assim: quer ser meu amigo? Passa lá em casa. E eu já tenho um livro para indicar aos meus alunos. Eskerrik asko, Jarbas.


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