Crônica

Quando tudo passar, seremos exatamente iguais

30 de Março de 2020 - 07h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Jarbas Tomaschewski - Editor-chefe

Vou chutar uma data: 1º de maio, Dia do Trabalhador. O Brasil decreta o fim da quarentena, aperta o botão e as portas das casas são abertas. As chaves giram, as grades são destrancadas e nós, aos milhões, nos jogamos nas ruas, desesperados pela saudade com a vida que tínhamos antes da Covid-19. Uma vida de luta contra o relógio, de brigas no trânsito, de pressão para atingir metas, de necessidade de consumo desenfreado, de relações superficiais, de distanciamento dos filhos e de um profundo e inquebrável contato - 24 horas por dia - com o celular.

Não tiraremos nenhuma lição da pandemia. Absolutamente nenhuma. Esse período em casa, que nos "obriga" a conviver com a família, será uma grande inutilidade e servirá, apenas, para intensificar nosso desejo de ser produtivo. Não há prazer no descanso. A sensação é de pecado. A máquina deixou de girar e nós aqui, vendo as horas passarem, sem poder fazer nada.

O mundo não será o mesmo daqui a algumas semanas. As ações de saúde sairão de cena para dar lugar ao grande diálogo dos pensadores. Eles serão chamados para opinar, apontar caminhos e projetar as lições valiosas do ano em que o mundo parou, em que as pessoas deixaram de consumir petróleo, de gastar mais, de destruir a natureza, de cometer crimes, de fechar os olhos às coisas mais valiosas da vida. E se seguíssemos assim, dirão os pensadores, mais focados em nós? E se todos abrissem mão de querer mais, obrigando a uma redução global de preços, declarando ao mundo: "Não precisamos de tanto"?

Não será assim. A economia não permitirá que seja assim, porque quer aquilo que éramos até dezembro de 2019, antes do novo coronavírus surgir: um planeta pulsante e focado no eu.

É uma pena. O ritmo atual é a prova daquilo que sempre sonhamos e desejamos, apesar do medo. Estamos em casa, com quem amamos, próximos uns dos outros, com mais tempo para refletir, cumprir promessas caseiras que envelhecem em nossas bocas, rir à mesa porque o relógio já não é um terrorista e com a agenda doméstica que envolve a todos.

Até que um dia - eu escolhi 1º de maio - a gente vai acordar às 6h30min, sacudir quem está ao nosso lado, invadir o quarto dos filhos, e dizer:

- Levantem, acabou a quarentena. Vi no celular. Estamos atrasados (apesar de ser 6h30min). Eu pego o almoço hoje, não vou ter tempo de fazer nada, tenho reunião. Tu abasteceu o carro? Claro que não, ele está na garagem há 30 dias, parado. Droga, eu tenho que pensar em tudo. E a empregada, vem hoje? Liga pra ela. Essas crianças que não descem pro café. Não tem pão, cadê o pão?

Eu me iludo e me agarro às palavras do biólogo Atila Iamarino, em entrevista à BBC News: "O mundo mudou, e aquele mundo (de antes do coronavírus) não existe mais. A nossa vida vai mudar muito daqui para a frente, e alguém que tenta manter o status quo de 2019 é alguém que ainda não aceitou essa nova realidade."

A reportagem feita com ele (https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52061804) merece ser lida e compartilhada por todos. Com lições e aquilo que muitos sonham: "A gente está descobrindo o que são os serviços essenciais, e estamos voltando a entender o valor de ciência, da mídia (profissional) e dos serviços de saúde. E de sistemas que são fundamentais desde sempre, mas que, em períodos de bonança, são fáceis de negligenciar."

E você, de que lado vai estar quando o planeta lhe chamar novamente?


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