Artigo

Quando literatura, estatística e VIDA se encontram

10 de Abril de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel
rittergaucho@gmail.com

A capa do Diário Popular da quinta-feira da semana passada que fez referência aos 500 óbitos registrados por Covid-19 em Pelotas foi certeira: uma tragédia anunciada. Eu diria que essa frase consegue colocar em convergência literatura, estatística e VIDA. O título faz referência a uma das principais obras da história da literatura ocidental: Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Marquez. Eu li esse livro quando estava na graduação, lá por 2002, para uma disciplina básica no início do curso de Jornalismo. Lembro vagamente do enredo: dois irmãos de uma família pobre e conservadora de um pequeno povoado prometem matar Santiago Nasar para recuperar a honra da caçula da família. Durante toda a narrativa os dois espalham para todos na comunidade que vão matar Santiago. Alguns vizinhos e amigos previnem o jovem, que tinha 21 anos, mas prevalece a sensação de que, fizesse o que fizesse, o personagem seria assassinado de qualquer jeito. E, de fato, não há surpresas ao final do romance quando a dupla concretiza o crime anunciado no título da obra.

Saindo da literatura ficcional para o mundo real, vivemos isso desde o início da pandemia. Desde os primeiros casos na Ásia e Europa foi anunciado que as chances de morrer por Covid-19 era de aproximadamente 2%. A doença chegou ao Brasil e o então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e sua equipe, repassaram esse índice nas entrevistas coletivas, logo após a confirmação dos primeiros casos. Mesmo que a gente considere que muitas pessoas tiveram a doença e não entraram para as estatísticas e baixe esse índice para 1% a tragédia estava anunciada. Não precisava ser nenhum gênio da matemática para concluir isso. Lembro que na época, quando falaram na televisão dos 2% de probabilidade de morrer, quando começaram a falar em imunidade de rebanho, eu falei para quem estava perto: Pelotas tem cerca de 340.000 habitantes. Por essa perspectiva, que era a defendida pelo presidente e pelo seu rebanho, todo mundo pegaria a doença e desenvolveria anticorpos. Aplicando o índice de 1%, ao final do plano genial, teríamos 3.400 pelotenses mortos. No Brasil, dos 211 milhões, teríamos 2,11 milhões de mortos. Um cálculo simples. E se aplicarmos os 2% basta dobrar o número de mortos. Hoje, por exemplo, com base nos índices oficiais, temos uma mortandade de aproximadamente 2,5% (mais de 340 mil mortos no país).

Apesar da simplicidade da matemática, a população caiu no papo de não fazer distanciamento e não se cuidar. Mesmo com a comprovação científica de que os anticorpos são temporários, os brasileiros seguem repetindo que "todo mundo vai pegar um dia" e, para piorar, milhões não querem se vacinar seguindo as teorias da conspiração digitais, que são a maior praga tecnológica da história da humanidade. Portanto, meus amigos, a ultrapassagem das 500 mortes em Pelotas, das 20 mil mortes no Rio Grande do Sul e das 340 mil no Brasil apenas estão confirmando a tragédia anunciada lá no início da pandemia. Poderia ter sido evitado. Se as pessoas que tinham o poder para isso soubessem calcular e tivessem o mínimo de amor pela vida (delas mesmas e dos outros), o uso de máscara teria sido orientado (e exigido), as regras de distanciamento seriam sugeridas (e cumpridas) em todos os lugares e alguns períodos de lockdown necessários teriam sido feitos de maneira planejada para minimizar prejuízos e salvar vidas. No entanto, no Brasil desgovernado, a tragédia foi anunciada e ficou a mesma sensação da história de Santiago Nasar: fizessem o que fizessem, as pessoas estariam desprotegidas e ameaçadas.

Infelizmente os números de mortos acompanham a estatística anunciada há mais de um ano. Não era para nos surpreendermos com os números que estamos vendo, pois optamos - enquanto nação - pelo plano que está sendo posto em prática: muita exposição ao vírus com mortandade de cerca de 2%. Traduzindo, a cada cem pessoas infectadas, duas morrem. A cada mil, 20 morrem. A cada cem mil, duas mil mortes. E nesses dois por cento pode estar eu, você, seu vizinho, seus pais, seus filhos. Ninguém tem superpoderes. Simples assim. Triste assim. Trágico assim. Pois o principal elemento da tríade apresentada no titulo dessa crônica é, ou deveria ser, a VIDA.

 

 


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