Artigo

Quando dizer não é o que vai permitir continuar dizendo sim

15 de Abril de 2019 - 06h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sadi Sapper - Jornalista

Pelotas tem experimentado, nos últimos dez anos, um período virtuoso de crescimento nos serviços prestados pela administração pública municipal, a partir do governo de Fetter Junior, passando pelo de Eduardo Leite e abrangendo os dois primeiros anos do mandato de Paula Mascarenhas. Obras infraestruturais importantes melhoraram a mobilidade urbana e o trânsito, resgataram outras demandas históricas e têm qualificado áreas essenciais, como educação e saúde, entre outras. Pode até ser que isso não seja opinião unânime, mas certamente o é para a maioria dos que aqui vivem e trabalham e está evidenciada por fatos como a eleição de Paula no primeiro turno e a extraordinária votação de Eduardo no segundo turno do pleito para governador, alcançando aqui inéditos mais de 90% dos votos, o que atesta aprovação, confiança e reconhecimento.

Nos últimos meses, como a própria prefeita tem deixado claro, as coisas tornaram-se um pouco mais difíceis, pela indesejável convergência de fatores que podem temporariamente sofrenar a sequência de obras e outros avanços. Contribuem para isso, como é do conhecimento da população, aspectos como as crises econômicas do País e do Estado, a dificuldade de alcançar metas arrecadatórias, a não aprovação pelo Legislativo de projetos estratégicos e a assunção obrigatória de novos e vultosos compromissos impostos aos cofres municipais, o que envolve desde a acentuada elevação dos depósitos mensais para quitar precatórios, até, por exemplo, a impostergável necessidade de contratar professores e servidores para atender a demanda decorrente da expansão e qualificação da educação infantil no município, com novas escolas e novas turmas.

Por desconhecimento, má fé ou coisa semelhante, não é incomum se ouvirem vozes que acham que o apertar dos cintos de agora é decorrência de uma gastança desenfreada e de um esbanjamento nos últimos 24 meses. Nada é mais errado do que pensar assim. Em 2017 e 2018, a prefeita e seu governo disseram "sim" a tudo o que lhes pareceu justificável, relevante e inadiável, inclusive privilegiando bastante as demandas sociais. Sem supérfluos, nem ostentações. Até acho que, se houvesse espaço e fôlego, gostariam de ter abraçado outras causas, mas, por prudência, não o fizeram. Agora, a conjuntura é mais hostil, mas não representa algo que não possa ser contornado com bom senso, criatividade, racionalização de custos e a compreensão de todos, o que inclui a sociedade pelotense e o compromisso dos próprios integrantes da atual administração.

Faço parte de um grupo designado pela prefeita para avaliar e opinar sobre demandas que, normalmente, envolvem novas despesas, inclusive no que se refere a questões de contratações e remuneração. Com serenidade e a responsabilidade que decorre do compromisso de procurar enxergar a floresta e não apenas o galho de uma de suas árvores, muitas vezes agora temos de dizer "não" , ainda que a contragosto. O que até pouco tempo atrás, em outras circunstâncias, certamente seria um "sim", hoje pode transformar-se num "talvez" e este pode evoluir para um "não". O que antes teria sido aprovado como novo encargo ou compromisso já no dia de ontem, agora vai precisar esperar para amanhã ou ainda para mais adiante. Assim, essencializar despesas (dizendo mesmo "não" a algumas coisas) é o jeito possível e até imprescindível para que a administração pública municipal possa continuar dizendo "sim" a toda coletividade, no que se refere a coisas como o pagamento pontual dos salários de seus servidores, a capacidade de honrar contratos, remunerar fornecedores e dar sequência a obras em andamento (mesmo que em ritmo mais lento) e manter com toda a qualidade possível os relevantes serviços que presta na saúde pública, educação, assistência social, segurança, limpeza, etc.

Mesmo em face do panorama adverso, a maioria isenta percebe que é muito bom o saldo a favor de Paula e seu governo, ainda mais se considerarmos que mais de dois terços das obras ou realizações prometidas já estão prontas ou encontram-se em fase de conclusão. E ainda há muitas coisas boas e importantes a serem entregues, como a avenida Duque de Caxias, o Ginásio de Esportes do Colégio Pelotense, a adutora do Santa Bárbara, o corredor de ônibus da Deodoro, a fase final da reconstrução do Calçadão, requalificação da Praça Coronel Pedro Osório e muitos outros avanços. Se governar é fazer escolhas (e, efetivamente, é), algumas coisas podem ficar para mais adiante, mas não estão fora do radar.

A gente sabe que o soberano e respeitável julgamento que o conjunto da cidadania faz de seus governantes pode estar sempre sujeito a algumas passionalidades de momento, que oscilam bastante entre o nascente e o poente. E todos sabemos que, da mesma forma que não é justo julgar um governo só por uma ou outra obra vistosa, também não o é avaliá-lo em seu todo por questões pontuais, como uma quadra de rua esburacada, uma sinaleira desligada, o incêndio em um prédio público, uma luminária ainda não substituída ou este ou aquele interesse pessoal contrariado ou adiado. A Prefeitura vai continuar dizendo "sim" para tudo aquilo que remeta ao mais genuíno interesse público, embora saiba que, para poder sustentar isso, também terá de incluir em seu dicionário quotidiano vocábulos e expressões até aqui pouco usadas, como "não", "mais adiante", "dá para atender só em parte", "quem sabe em 2020", etc. E o "sim", para tudo o que é essencial, é claro que continuará fazendo parte do livro de cabeceira da prefeita.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados