Editorial

Quando a vida precisa imitar a arte

06 de Maio de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

"Vamos todos nos cuidar. Cuidar da família, dos vizinhos, dos próximos, dos distantes, de todos. Porque enquanto essa vacina tão esperada não chega para todo mundo, é bom lembrar que contra o preconceito, a intolerância, a mentira, a tristeza, já existe vacina: é o afeto, é o amor. Então diga o quanto você ama a quem você ama. Mas não fique só na declaração, não. Ame na prática. Amar é ação. Amar é arte.”

Esse texto é de Paulo Gustavo. Ator, humorista, vítima da Covid-19 aos 42 anos de idade. Alguém que se acostumou a fazer o povo rir ao longo dos anos, mas que também o fez chorar com sua partida, confirmada na noite de terça-feira.

Paulo Gustavo era um artista. Era homossexual. Tinha marido e dois filhos. Sabia bem o significado da palavra família. Doou milhões para a caridade em silêncio, algo que veio à tona ontem, já com o ator em outro lugar. Levou milhões de pessoas ao cinema para assistirem a um filme que teve como desfecho o casamento homoafetivo. E isso no Brasil, o país da diversidade, o que mais mata a comunidade LGBT no mundo.

Paulo Gustavo lutou por meses contra o coronavírus. No momento da pandemia em que vivemos, com tantas perdas, tanto atraso, tanta incerteza em torno da tão necessária imunização, parece que sua maior comorbidade foi ser brasileiro.

O artista fez história nos palcos, nas telinhas, na telona e também no hospital. Mesmo sedado, acordou e interagiu, mas partiu, oferecendo, assim, sua imagem e seu rosto a quem só enxerga números. Juntou-se a outros mais de 410 mil brasileiros em uma estatística triste, clara, mas também imensurável. Cada uma dessas vidas precisa ser lembrada hoje e sempre, principalmente quando, quem sabe, finalmente nos tornarmos um país em que a porcentagem de imunização atinja números tão altos quanto os de um campeão de reality show.

A vida precisa imitar a arte. Arte como a de Paulo Gustavo. A arte de espalhar tolerância, verdade e alegria. A arte de fazer sorrir e, ao mesmo tempo, de passar uma mensagem tão valiosa.

Vamos todos nos cuidar. Cuidar da família, dos vizinhos, dos próximos, dos distantes, de todos. Porque enquanto essa vacina tão esperada não chega para todo mundo, a melhor imunização é o afeto, é o amor.


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