Ponto de vista

Psicanálise & Esperança

26 de Junho de 2014 - 06h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Luís Rosa Sousa, psicanalista do Hospital Espírita de Pelotas e do Hospital Moinhos de Vento, Porto Alegre  
prosasousa@gmail.com

Recebi este e-mail

Querido amigo, as lembranças acerca da nossa amizade são constantes, em razão disso ouso em te dizer algumas coisas. Frases sempre foram constantes entre nós e ambos gostamos de humor. Cito-te a frase do humorista Pagano Sobrinho "O dia de amanhã ninguém usou... Pode ser seu". Aventuro-me a interpretá-lo, a frase fala de esperança, das oportunidades que a virgindade do amanhã disponibiliza. Algo que tu e a psicanálise proporcionaram para minha vida, cri que a dor no presente, dissipa no futuro. Assim sendo, abuso e sugiro que escrevas um artigo enfatizando em como a psicanálise e a terapia podem ser úteis em proporcionar esperança. Eu creio e meu desejo é que os teus leitores ao desfrutarem do artigo sintam-se motivados a procurar a esperança. O líder político irlandês Lord Edward Fitzgerald afirmou que: "O Ano-novo revive velhos desejos", dizem que no Brasil o ano inicia após o Carnaval, não sei, o pouco que sei, é que um ano-novo pode começar agora e no presente podemos concretizar velhos desejos.

Um fraterno abraço! Jary.

Querido amigo, tua carta me abriu um novo caminho em psicanálise. Nunca a tinha pensado com o foco na esperança. Não caberia, diz o oficialismo, que o analista seja veículo de esperança. Apenas fazer consciente o inconsciente. Mas, quem daria ouvidos a um analista que não seja fonte de esperança?

Na esperança o coração se enche. E quando isso acontece é sinal que se viu o fim do brete. É isso que permite a busca pela vida. E a coisa é buscar. Buscar sempre. Alcance-se ou não, seguir na busca.

Há uns anos parafraseei Fernando Pessoa, que disse: “O poeta é um fingidor/finge a dor tão plenamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente”. Eu, anos depois: o analista é um dize-dor/diz a dor tão plenamente/ buscando não ser tão dor/a dor sua e a do paciente. Acredito nisso. Inventar palavras à dor, narrativas talvez novas para velhas dores, compartilhar experiências, voar com as amizades próprias das terapias. Tudo isso é um alento, um seguir buscando. Uma esperança.

Além disso, o curso do tratamento depende do sentido que o paciente dá para a pessoa e as circunstâncias do analista. Se o paciente investe-o como sua esperança, então, diga o analista o que disser, o resultado no paciente estará colorido por ela. É através da esperança que o paciente nos procura e, por isso, que também segue. Não esqueço que, no outro extremo, para o analista, o paciente se torna fonte de esperança, na medida em que percorrem juntos os caminhos da relação e suas descobertas.

 


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados