Artigo

Psicanálise do voto fanático

11 de Outubro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - hospital Espírita - prosasousa@gmail.com

Que sejamos todos potencialmente fanatizáveis é coisa que não dá para negar. Não digamos, por prudência, desta água não beberei. Mas, há, contudo, gradações, há quem facilmente embarque nessa canoa furada, já outros aguentam gauchamente o tranco, mas não dá para esquecer o velho Terêncio que, antes de Cristo já nos pedia modéstia: nada do que é humano me é estranho, dizia ele.

Salvo melhor juízo, os fanáticos a quem conheço não se julgam como tal. Acham que são gente a quem apenas lhes sobra razão e, nos casos mais agudos, tratam de curvar à sua luz a quem os circunda. Encontradiços em religiosos, como também em políticos ou no futebol, mas é possível para a espécie humana fanatizar-se por qualquer coisa. São eles, em qualquer arena, os eternos apóstolos, coisa que está de acordo com a raiz francesa da palavra que aponta a poder sentir-se inspirado por algo divino, daí serem infatigáveis.

Em tempos de crise - e a vida é uma crise eterna - a bolsa dos valores fanáticos está sempre a subir. Olhem-se estes tempos brasileiros, bons para pensarmos nosso funcionamento. Ao nos contagiarmos com a febre terçã do entusiasmo exacerbado, coisa que posso não perceber na maioria das vezes, passamos a dar valor extremo ao que acreditamos, sem necessidade de provas, e execramos os que nos contradizem, por mais argumentos que tenham, e que não vamos ouvir. É um estado mental peculiar no qual nos basta desfrutar apenas de uma única ideia em detrimento de todas as demais. Vive-se um estado eufórico de hiperargumentação em causa própria - uma certeza de que ninguém nos derrubará do cavalo - que se potencializa por perceber esfacelada qualquer ideia contrária. Padecemos, na circunstância, de um estado grave para o qual os remédios humanos habituais - dialogar, ponderar, muito ouvir, pouco falar, pensar, pesquisar - não prestam para nada. Os analistas chamam a isto de um estado maníaco, lembrando que esta palavra vem do grego manus, loucura, demência. Nesse estado padecemos de certezas. O bom Nietzsche alertou-nos, em Ecce homo, que não é a dúvida, é a certeza que enlouquece e o pessoal da ciência há tempos nos mostra que as provas/evidências que nos oferecem têm sempre um caráter provisório. Logo, logo teremos evidências contrárias. A saga nutricional do ovo frito não nos deixa mentir.

O fanatismo político destas horas ganhou espaço. Se acometido do mal, meus ouvidos não darão entrada ao que estiver fora da pedra que tomou conta da minha cabeça e me “fortaleceu”, ao ser banhado com a sensação de convicção. Eu sei que sei e pronto, não me falem porque é inútil. Eu sei, os demais são ignorantes, babacas. Bom, se pudéssemos pensar que sensação de saber não é saber, ideia que posso utilizar só nos tempos de prudência. É a hora para espertos, que manipulam ideias complexas com amostragem simples, que todos “entendem”, tipo, para sua melhor segurança, arme-se. Filosofia cowboy nunca deu certo.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados