Editorial

Provocações fora de hora

22 de Setembro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Não existe versão oficial que explique o motivo do representante brasileiro na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas sempre ser o responsável pelo discurso inicial do evento desde sua segunda edição, em 1947. No entanto, algumas possíveis razões costumam ser apontadas para que isso se mantenha desde que o então chefe da delegação do Brasil, o gaúcho Oswaldo Aranha, presidiu os trabalhos. E uma das mais citadas diz respeito à diplomacia brasileira, com o país sendo escolhido à época por sua postura considerada neutra no contexto de tensões entre Estados Unidos e União Soviética pela Guerra Fria.

Não necessariamente por ser um país neutro, mas possivelmente por sua tradicional postura mais pragmática, o Brasil manteve a tradição de abrir o encontro em Nova Iorque. E, embora no decorrer dos anos os vários presidentes que se pronunciaram tenham, claro, levado para seus discursos também a política interna, em geral os recados não saíam das entrelinhas. Algo totalmente diferente do que se vê desde 2019 com Jair Bolsonaro.

Em sua presença ontem na Assembleia Geral da ONU, o presidente brasileiro voltou a repetir o que já havia feito em anos anteriores. Centrou sua intervenção em temas de interesse de sua base de sustentação ideológica e política em detrimento o que o mundo espera de um chefe de Estado de um país a relevância do Brasil. Ao invés da análise do cenário global e do papel brasileiro neste contexto de crise econômica, ambiental e sanitária, o presidente optou por acusações à imprensa, adversários políticos, organizações internacionais e "associações brasileiras impatrióticas" que, juntos, seriam os verdadeiros causadores de problemas.

Como se não bastasse, justamente quando diversos lugares do mundo enfrentam a resistência das populações mais jovens à vacina contra a Covid-19, o representante do Brasil decidiu criticar as tentativas de diferentes países de ampliar a adesão aos imunizantes, defendendo inclusive o malfadado tratamento precoce.

Evidentemente, a abertura do evento da ONU protagonizada pelo presidente brasileiro, de olho em 2022, deve ter agradado seu eleitorado. Contudo, tais argumentos e provocações podem até vir a caber no contexto de campanha ou coletivas no cercadinho do Alvorada. Aos olhos do mundo, como definiu o The Washington Post, o Brasil abriu a Assembleia Geral de forma "constrangedora".


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