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Prolegômenos de uma rebelião (II)

30 de Maio de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

No artigo anterior, escrevi sobre as pretensões dos revolucionários de 1930 e as primeiras desavenças entre o Palácio do Catete e o Estado de São Paulo. E terminei dizendo que enquanto os constitucionalistas liberais pediam eleições, sonhando em reconquistar antigos privilégios nas urnas, os tenentes pressionavam em sentido contrário, achando que a realização das eleições interromperiam o processo revolucionário, repondo no poder os carcomidos defensores do estadualismo. Pressionado, Vargas manipulava os extremos: ora advertia os tenentes contra as tentações da via violenta, ora reiterava que o regresso ao regime constitucional não poderia representar uma volta aos tempos da Velha República. 

São Paulo sentia-se vitimado pela Revolução de 30 que impedira a posse de Julio Prestes. Mais: considerava-se ocupado militarmente. Mesmo o Partido Democrático dos constitucionalistas que haviam se oposto a Prestes estava excluído do poder. A autoridade em São Paulo oscilava das mãos do interventor João Alberto para as do chefe de polícia Miguel Costa, passando pelo crivo do general-comandante da Região Militar. Eram alinhos provisórios e humilhantes. Para os paulistas, a Revolução de 30 era um movimento dirigido contra São Paulo, sentimento que alimentava demônios separatistas. De outra feita, havia agravantes externos: a depressão mundial provocara séria queda das importações e, para atender à demanda interna dos produtos até então importados, houve transferência dos investimentos do café para a indústria. Isso solapava o poder dos cafeicultores.

A discriminação era óbvia: gaúchos, mineiros e paraibanos, populações dos estados que haviam feito a Revolução de 30, recebiam tratamento diferenciado. Em 1932, o Partido Democrático rompeu com Vargas e aderiu à Liga de Defesa Paulista. Ambos formaram a Frente Única Paulista, que apelava ao sentimento regionalista e era apoiada pelos cafeicultores, desgostosos com a tíbia política de defesa de preços do Governo Provisório. Contava ainda com os oficiais que haviam sido preteridos pelos tenentes, liderados pelo general Klinger e pelo coronel Euclides de Figueiredo, os quais passaram a conspirar contra o governo central. A preferência de Getúlio pelos tenentes agravava o quadro político. Demitidos, os ex-ministros Lindolfo Collor e Maurício Cardoso retornaram ao sul, e logo se declararam em oposição ao presidente.

Tentando amenizar a crise política, Getúlio nomeou o paulista Pedro de Toledo para interventor no estado, mas a escolha revelou-se infeliz. Para agravar, Oswaldo Cruz ousava tutelar o interventor e isso aumentara a irritação dos paulistas. Em 9 de julho de 1932, São Paulo pegou em armas. Era a Revolução Constitucionalista! Fábricas serão convertidas para a produção de munição e a classe média doou o ouro de suas alianças. A massa de trabalhadores - muitos deles imigrantes recentes - revelou-se indiferente ao conflito. A rebelião paulista foi uma advertência. E Getúlio Vargas a entendeu. Sabiamente não tripudiou sobre os vencidos.

Leia aqui: Prolegômenos de uma rebelião (I)


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