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PRINCIPAIS CONSEQUÊNCIAS DO DESCARTE INADEQUADO DE PNEUS

25 de Junho de 2018 - 10h22 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Marcelo Dutra da Silva - professor e ecólogo - dutradasilva@terra.com.br

O descarte indiscriminado de pneus no ambiente livre é um problema de saúde ambiental, com consequências que podem repercutir na poluição do solo, na contaminação das águas e na qualidade do saneamento enquanto criadouros de insetos, vetores de doenças. A permanência residual de um pneu é bem maior que sua vida útil. Estima-se que a degradação completa de um pneu ultrapasse a marca dos 600 anos. Expostos ao tempo (luz, calor, frio e umidade), os pneus começam a se desfazer, gerando líquidos, materiais metálicos, polímeros e gases, com alto poder de contaminação dos ecossistemas e atmosfera, mesmo que de forma muito lenta.

A degradação de pneus representa uma grave ameaça à fauna, particularmente peixes e outros indivíduos aquáticos. De outra parte, a utilidade do pneu é indiscutível, presente em qualquer veículo automotor, transferindo resistência ao transporte de cargas, tração e estabilidade aos veículos. A história do pneu começa em 1839, em uma invenção acidental do americano Charles Goodyear, quando deixou cair enxofre sobre uma borracha em alta temperatura. Goodyear percebeu que essa mistura manteve as propriedades mais valiosas da borracha: a resistência e a elasticidade. O pneu ganhou o mundo e o problema ficou por conta do que fazer com esse material ao fim de sua vida útil.

A composição básica de um pneu (automóvel de passeio) compreende borracha, sendo 27% sintética e 14% natural; derivados de petróleo e produtos químicos (17%), incluindo o enxofre que funciona como agente vulcanizador; materiais metálicos, normalmente aço (10%); fibra têxtil (4%); e negro de fumo, material produzido pela combustão incompleta de derivados de petróleo, obtidos em refinarias (28%). O negro de fumo é frequentemente usado como pigmento e reforço em borrachas e produtos plásticos. É conhecido por ser carcinogênico e prejudicial ao sistema respiratório, por conter grandes quantidades de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos. É o que faz do pneu um perigo quando queimado e os seus gases respirados.

O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), por meio da Resolução nº 416/2009, dispõe sobre a prevenção à degradação ambiental causada por pneus inservíveis e sua destinação ambientalmente adequada. Porém, no ano de 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos instituiu a Lei nº 12.305, que aplicou atenção especial à logística reversa, definindo então o acordo setorial como um dos instrumentos de trabalho conjunto. E o descarte ilegal ou uso inadequado de pneus, em estruturas que alteram a margem dos corpos hídricos, por exemplo, pode configurar crime de poluição ambiental, conforme a Lei 9.605/98.

Estudo em laboratório conduzido para determinar se pneus imersos em água fresca lixiviam produtos químicos tóxicos para a biota aquática demonstrou que pneus usados têm maior poder de lixiviação do que pneus novos e que os produtos da degradação são liberados lentamente e não são voláteis, mantendo-se estáveis e com relativo poder de toxicidade. Outro estudo fez uso de pneus triturados e amostras extraídas com solvente orgânico, ácido forte e chuva ácida simulada. A extração de solvente produziu 92 compostos, muitos com efeito nocivo para saúde humana, incluindo carcinogênicos conhecidos e irritantes alérgicos, que podem complicar a asma. O ácido forte liberou quantidades mensuráveis de Pb e Cd e grande quantidade de Zn, enquanto a chuva ácida simulada extraiu apenas Zn, em quantidades significativas.

Pneus podem liberar substâncias tóxicas e seu descarte deve ser observado com cautela. A melhor forma de controle é o retorno ao fabricante, o reaproveitamento ou a recauchutagem. E este cuidado depende da atenção e colaboração de cada um de nós. Não descarte pneus de qualquer forma.


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