Opinião

Preferencial

25 de Junho de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella
malicestrella@yahoo.com.br

Constato que prioridades variam de acordo com a faixa etária. Os interesses que prendem a atenção ou, melhor dizendo, o que nos mobiliza na adolescência vai perdendo a nitidez e cede espaço a novos horizontes e a uma diferente escala de valores. As prioridades amadurecem conosco, contrariando a assertiva de que tempo é questão de prioridade. Prioridade é questão de tempo.

Estou longe de afirmar que as prioridades da juventude sejam menos válidas do que as do mundo adulto. Até porque, o instante que se está vivenciando é sempre muito pleno de significados. O desapontamento vivido aos 15 anos é tão desagregador quanto o desencanto aos 40. Aos 15, a prioridade é “abarcar o mundo com as pernas”. Aos 40, é “uma coisa de cada vez”. E mais adiante, as prioridades tomam forma de esculturas que o tempo cinzelou.

Atualmente, minhas prioridades são como linhas verticais que seguem uma hierarquia estipulada por meu bom senso. Algumas facultativas, outras obrigatórias. Categorias que sobrevivem em pacífica vizinhança, salvo algumas exceções. Momentos surgem em que uma séria incompatibilidade se manifesta. Existe o que é preciso fazer e o que é possível fazer.

Afora tais contratempos, consigo executar as tarefas prioritárias por dever e por prazer. Imponho regras e estabeleço normas, dentro dos padrões da consciência e do discernimento adquiridos através do aprendizado de vivências e convivências.

Prioridade é não deixar para amanhã o que posso fazer hoje. É não retardar o passo porque a vida é célere e se nega a esperar. A vida é preferencial.

Fazendo um retrospecto das minhas experiências, reconheço que houve épocas em que inverti minhas prioridades, para não escapar da regra de ser humana e, portanto, falível. Deixei de lado o mais importante e me prendi a detalhes. Troquei sorrisos por lágrimas, perfeitamente evitáveis. Bati com o nariz em portas que já sabia que não se abririam. Teimei em buscar tesouros sem usar mapas. Deixei o abraço para depois e omiti palavras necessárias. O número um da minha lista era, tolamente, eu mesma. O consolo é que tal fase durou pouco. E, até certo ponto, foi normal e previsível. O único mérito é ter servido como lição.
As prioridades da maturidade são encantadoras e fascinantes.

Coloco meu nome em primeiro lugar, porém com uma perspectiva bem diversa. Prioridade obrigatória é acordar e dar conta das pequenas obrigações rotineiras, é trabalhar para suprir o sustento, é caminhar para preservar a saúde, é sorrir para a vida, é cantarolar e manter o brilho no olhar. E, também, é revisar e atualizar a lista de planos das prioridades voluntárias, tais como realizar a viagem dos sonhos.

Aliás, ter um rol de prioridades e colocá-las em prática, de certa forma, é extremo privilégio num exercício de lucidez e assertividade. Maneira peculiar de organizar sonhos e administrá-los de conformidade com o plausível e permitido.

O preferencial se afigura nítido conforme o desenrolar do tempo, sem a sombra da dúvida. Afinal, prioridade é ter prioridades.


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