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Por que vamos às ruas

24 de Junho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Ronaldo Quadrado, vice-presidente do PT Pelotas

Diz o sociólogo Jessé Souza que é um mito perverso afirmar que o povo brasileiro é um povo pacífico, resignado e servil. Conclui ele que o brasileiro é, isso sim, um povo reprimido. Sofre desde as repressões simbólicas, como o desprezo explícito dos legatários de senhores de engenho e das charqueadas, até as mais efetivas, como a negligência das políticas de Estado com a violência e repressão física incluídas neste pacote trágico.

Não são raros os momentos de mobilização social na história brasileira desde o "descobrimento", passando pelas lutas em prol da independência política, pela abolição da escravatura, pelas lutas ao direito à terra, até as grandes mobilizações contra a ditadura civil-militar de 1964, contra os governos neoliberais de FHC, chegando nas lutas contra o golpe de 2016 e pela liberdade de Lula já nos últimos três anos. Sem falar naquelas lutas e mobilizações locais, onde governos de direita não perdem tempo em retirar direitos de servidores e sucatear serviços públicos que deveriam atender com qualidade o povo mais pobre.

Nos últimos dias 29/05 e 19/06, estivemos novamente nas ruas de todo país pedindo a responsabilização de um governo que a cada dia fica mais evidente ser o principal causador da assombrosa marca de 500 mil pessoas mortas pela pandemia de Covid-19 no Brasil. Ir às ruas em meio à pandemia causa muito desconforto e apreensão, mas não podemos deixar de, como protesto, expressar uma posição sobre um governo genocida que chegou ao limite do suportável. A CPI da Pandemia está deixando tudo muito evidente aos olhos de quem, porventura, ainda estivesse sendo enganado em relação às reais intenções da camarilha que se apoderou das estruturas do governo federal. O atual presidente só faz acabar com todo e qualquer vestígio de humanidade, sensibilidade e eficiência na administração pública.

Uma frase que se tornou síntese das últimas mobilizações foi "se um povo vai às ruas na pandemia é porque o governo é mais perigoso que o vírus" e é justamente disso que se trata. O governo é responsável direto pelas mortes quando deixou de comprar vacina e utilizou orçamento público para comprar medicação que não havia, e nem há, comprovação de eficácia para tal pandemia. Um governo que relativizou e ironizou todas as medidas recomendadas de mitigação à disseminação do vírus, indo na contramão ao defender que a ampla propagação do tratamento precoce e ineficaz traria como benefício uma imunização coletiva, mesmo que às custas de milhares de centenas de mortos, como infelizmente veio a ocorrer.

Pode parecer contradição que os partidos de esquerda e os movimentos sociais estejam nas ruas sendo que foram estes os principais defensores das medidas de distanciamento social tão combatidas pelos governos de direita, que todo tempo estabeleceram uma falsa dicotomia entre a proteção da vida e a proteção do trabalho, do emprego e da renda, delegando à iniciativa privada um papel estratégico que é essencialmente atribuição das políticas de Estado. Mas não há contradição. Na verdade, há uma necessidade premente, uma imposição da realidade, uma obrigação cidadã que é defender em praça pública _ arena real da política _ os direitos de toda a população que sofrem os efeitos da pandemia. Óbvio que reconhecemos a necessidade de explicar essa suposta contradição e este é um papel de educação popular que cabe a todo militante. É evidente também que sentimos medo, mas como diz outra frase conhecida, alcunhada na Marcha das Margaridas, "medo a gente tem, mas não usa".


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