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Por que amar é tão difícil?

09 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Desde minha pré-adolescência sentia atração por meninos. Ainda meio guri, não sabia muito o que fazer com isso, ainda mais suspeitando que contrariaria tudo o que meus pais estavam planejando para mim como herdeiro varão e futuro chefe de família. Tinha que arranjar uma esposa e encher de netos a casa onde cresci. As lições de moral e cívica na escola e a catequese não tocavam diretamente nesse assunto, mas sublinhavam em negrito que somente um tipo de namoro e de formação de família era aceito. Outras configurações eram desvios e danação. Não entedia muito a razão disso tudo, o porquê de tanto pânico e reprovação. O que eu sabia e sentia era o desejo de beijar e abraçar outros meninos e não via nada de errado nisso, até porque eu só beijaria o menino que quisesse e tivesse desejo por mim.

Na medida em que fui crescendo, diante da zombaria e das piadinhas diárias, pedia respeito a quem me olhava atravessado ou achava que eu era menos. Mas antes de finalizar o Ensino Médio, o Artur e eu fomos levados à direção porque estávamos de mãos dadas e havíamos nos dado um selinho no pátio do colégio. Levamos uma reprimenda daquelas, de que meninos não podiam ficar com meninos, que isso era contra a natureza e as leis de Deus e blá-blá-blá-blá. Argumentei de que se fosse contra a natureza e contra as leis de Deus não poderia acontecer e que eu não teria esse sentimento em meu coração. Indaguei sobre as meninas que andavam de mãos dadas, algo muito bonito. O diretor me interrompeu e não deixou eu terminar a ideia e nos suspendeu por três dias. Além disso, me tirou dos times de futebol e de basquete da escola para não contaminar os colegas.

Mas quem é o doente, afinal? Que homem infeliz, pensei! Mandou um recado para o meu pai e isso foi um fim de mundo. Aos 16 anos, apanhei como nunca e fui obrigado a confessar que já tinha beijado o Artur e outros meninos. Nunca mais vi o Artur. Soube que a sua família, morta de vergonha, mudou de cidade. Talvez para velar na solidão dos confins da incompreensão o amor guilhotinado entre dois adolescentes. Meu pai ficou tão furioso que quis me expulsar de casa. Minha mãe e minha irmã intercederam em minha defesa pedindo a ele que se acalmasse e repensasse a decisão. Não deu outra. Ele resolveu sair de casa e nos abandonou aos berros, ofendendo minha mãe e minha irmã.

Quanto a mim, deixei de existir para o meu pai. Fiquei invisível. Uma sensação de abandono, de injustiça, de não querença. Quando ele passava em casa para ver minha mãe e minha irmã, sabia que ele torcia para que eu não estivesse mais lá, que eu tivesse morrido, fingia não me ver e, então, para não constranger ninguém, eu me escondia. E chorava. Meus avós e alguns tios e primos também se afastaram de mim. Nunca mais Natal em família. Minha vida virou um sofrimento só e um sentimento de culpa tomou conta de mim. Achava que tinha arrebentado minha família em mil pedaços. Abandonei os estudos, larguei o piano, perdi o viço, adoeci. Tentei o suicídio. Fui socorrido a tempo. Minha irmã me consolava, tentava me reerguer e se converteu em um porto seguro. Em uma das vezes que estive no hospital, conheci um jovem, um pouco mais velho do que eu, que cursava Enfermagem e estava estagiando. Nos apaixonamos e começamos a sair juntos. Foi da hora. Ele contou que passou por alguns perrengues, mas que os havia superado. Voltei a estudar e a sorrir. Tirei o mofo do piano e voltei a jogar futebol no time do meu namorado. Estou no meio do curso de Engenharia e estou feliz com esta nova família. Tenho saudades do meu pai. Talvez ele tivesse dificuldades em aceitar caminhos e felicidades diferentes das dele. Talvez ele tivesse que amadurecer.


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