Artigo

Picasso e Cocteau

19 de Outubro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

Para Jean Cocteau, uma grande histoire d´amour; para Pablo Picasso, uma relação de interesses bem claros e definidos, mesmo que tais interesses representem amizades esporadicamente intensas.

Com Picasso, Jean Cocteau é um legítimo rodízio de regalos. Durante a guerra de 1914, vestindo um uniforme com atavios cortado por Poiret, celebrado costureiro parisiense da época, Cocteau lhe envia charutos cubanos. Mimoseia-o. Paparica-o. Permuta de farda para fantasiar-se de arlequim, na esperança de que o artista espanhol o escolha como modelo. Fracassa. Mas é bem-sucedido ao lado de Diaghilov: monta-se o balé Parole, argumento de Jean Cocteau, música de Érik Satie e cenários de Pablo Picasso. Anos depois, o pintor proclama que todos os cabeleireiros chiques de Paris conhecem o poeta. Picasso usa Cocteau como seu bode expiatório.

Nos dias de guerra e ocupação da França pelos alemães, Jean Cocteau e Jean Marais chegam ao atelier de Picasso em Paris. O pintor aprecia o jovem ator, cujo porte físico o fascina. Aos olhos de Picasso, Cocteau é menor. O poeta se afasta rumo às telas encostadas nas paredes. Picasso segue a lenta progressão de Cocteau diante das obras artísticas expostas. Seu olhar expressa desprezo e ironia. Já Cocteau observa as pinturas com raro interesse e profundidade. E ele continua a caminhada sob o olhar impiedoso do pintor, que não desgruda dele. Por fim, Picasso pergunta-lhe: "O que acha de meus quadros?". Cocteau aperta os olhos, prende a respiração, exala um suspiro e responde-lhe: "Lindíssimos! Lindíssimos!". Picasso sorri... maldoso... e solta a farpa: "Você não entende nada!".

Não gostam dele. Ele sabe disso e se desespera. Cocteau sempre desencadeia as forças de oposição em seu derredor. Ao chegar a Montparnasse, em 1916, os pintores boêmios o desprezaram. Chique demais! Elegante demais! Também o acusavam de querer adonar-se do lugar ocupado por Apollinaire. Depois, os surrealistas o detestaram. Mundano demais! Afetado demais! Vichy o despreza publicamente. Depravado. Lascif. Drogado. Um André Gide piorado. Mas ele tem coragem. Demonstra suas inclinações sem complexo, se não com complacência. Sem opinião política, mas não é um colaborador nazista. Cocteau não é condenável como um Céline ou um Sachs. Todos esses escritores de extrema direita passam a guerra clamando o assassinato de judeus, franco-maçons e comunistas. Cocteau não é antissemita; ao contrário. Sempre odiou todas as formas de racismo.

O tempo passa. De novo, Jean Cocteau recebe farpas de uns e proteção de outros. Em breve, comprometer-se-á com um marginal que escreve como Villon, rouba livros como Cendras, um poeta maldito que se tornará o seu Rimbaud antes de inflamar as penas e os corações de ilustres aduladores: Jean Genet. O ardor é imediato. Fascinado pelo poder de seus versos, Cocteau apaixona-se por Genet. Bem, mas aí é outra história...


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