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Pela reabertura das escolas gaúchas

03 de Setembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Michel Georges dos Santos El Halal, médico intensivista pediátrico

Conforme adentramos o mês de setembro de 2020 uma discussão inadiável se impõe. É mais do que necessário, é imperioso que iniciemos uma discussão sobre o retorno das aulas presenciais nas escolas gaúchas. Com as medidas de isolamento social determinadas pelo Governo do Estado, as crianças estão afastadas do convívio escolar desde o mês de março. Após cinco meses de afastamento, os efeitos colaterais do isolamento social na saúde das crianças estão evidentes. E, na condição de médico pediatra, não tenho dúvida em afirmar que as crianças são mais vítimas das medidas de isolamento social do que do SARS-CoV2, o vírus causador da Covid-19.

O principal dado a ser considerado vem da Epidemiologia, ciência que estuda, entre outras coisas, incidência de doenças infecciosas, bem como suas respectivas taxas de letalidade. Na faixa etária pediátrica, a morte por Covid-19 é um evento extremamente raro, com taxa de letalidade próxima de zero. Evidentemente, alguém poderia argumentar que enquanto houver o mínimo risco é preferível manter as crianças em casa, mesmo que por tempo indeterminado, seja qual for o dano emocional causado, pois a morte seria o único desfecho para o qual não haveria solução. Seguindo essa lógica, poderíamos fechar as escolas e proibir festas de aniversário e brincadeiras nas pracinhas por toda a eternidade, uma vez que a morte por Covid-19 até poderia (um dia, quem sabe), chegar a um zero absoluto, porém, infelizmente, crianças seguiriam morrendo de outras infecções que teriam contraído em escolas, festas e pracinhas. Posso citar, sem esforço mental algum, infecções por adenovírus, vírus sincicial respiratório e influenza como causas comuns de doenças graves e morte em crianças todos os anos em nosso Estado. Ou seja, o risco de morte por Covid-19 não é um argumento capaz de sustentar o fechamento das escolas.

Não sendo ainda suficiente o argumento pesado e incontestável que os números e a Epidemiologia trazem, posso avaliar a situação vivida pelas crianças do ponto de vista emocional. Para tal, invoco a empatia do leitor. Peço que se imagine como uma criança de dez anos, sedenta pelo convívio social, alegre ao brincar no recreio com os colegas, fazendo os temas correndo para terminar logo e ir brincar na rua com os amigos, jogando bola na rua, brincando de pega-pega, esconde-esconde, ansiosa para a próxima festa de aniversário do colega... Agora, imagine-se com 10 anos sem nada, absolutamente nada disso. Não por um dia, uma semana, ou um mês... por cinco meses. Isso deixará marcas nas crianças, impossível não deixar. O dano está feito. Uma escalada nos quadros de ansiedade e depressão já pode ser identificada nos consultórios pediátricos. Sem falar nos temas já batidos da obesidade infantil e do sedentarismo, que a essa altura já podem ser considerados problemas periféricos, dada suas irrelevâncias frente aos distúrbios mentais.

Contra a reabertura das escolas ainda poder-se-ia argumentar que as crianças deveriam ser mantidas em isolamento social para evitar que as mesmas viessem a se contaminar nas escolas e, como consequência, carregassem os vírus para suas casas, suas famílias e, especialmente, os idosos e as pessoas com fatores de risco para morte por Covid-19 com os quais convivem. Este é, na verdade, o principal argumento para o fechamento das escolas até o momento. Entretanto, um dilema ético se impõe. Seria correto, ético, submeter as crianças a tamanho sacrifício em nome da suposta segurança dos adultos e dos idosos? Seria correto administrar uma "vacina" cheia de efeitos colaterais a uma criança para tentar evitar que seu avô fique doente (sem nenhuma garantia de resultado)? Será que o "remédio" não está amargo demais para alguém que nem precisaria estar tomando remédio algum?

É imperioso que esse tema seja discutido agora, sem demora, sem negligenciar ainda mais o sofrimento das crianças. A opção de retorno às aulas presenciais nas escolas deve ser oferecida às famílias, seguindo protocolos de higiene e segurança a serem definidos pelos gestores. Aos pais e familiares que, por qualquer motivo, seja pelo contato da criança com familiares que apresentem fatores de risco, ou simplesmente por medo, ainda optarem por manter seus filhos em casa, que siga sendo oferecido o ensino à distância.


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