Artigo

Pé na Porta e o Herói Banal

21 de Abril de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Celina Brod, mestre e doutoranda em Filosofias Política, Ética pela UFPel

Queria eu me ausentar dos horrores e vir aqui contar para vocês sobre a tranquilidade de uma vida não examinada. Dizer, por exemplo, que Sócrates estava errado ao pregar que uma vida irrefletida não merece ser vivida. Há mentes serelepes que são ocas de teorias. Platão confundia bondade com análise, talvez pensasse que no cessar da ignorância, cessaríamos a maldade. Deixe estar. Cada um escolhe para si os remédios para as imperfeições do mundo. Platão elegeu a razão, alguns elegem Cristo e outros elegem partidos. Tudo isso porque não conseguimos ficar quietos e sozinhos num quarto, diria Pascal.

Qual é o meu Rivotril para o leitor? fujam para a literatura, misturem-se aos pensamentos dos personagens e peçam, com frequência, demissão do mundo informado. Só não esqueçam de molhar as plantas, caminhar e fazer o tema de Inglês. Eu sou um caso perdido, não me furtarei de expor os cantos difíceis, ou seja, coisas que impedem uma mínima boa vida. Nenhuma vida pode ser minimamente boa quando atolada no abuso. Isso vale para o plano macro, o da sociedade e micro, dos indivíduos.

Histórias, como as do menino Henry, que é a história de outros tantos, as vezes levam anos para serem contadas. Por vezes, é um final trágico que revela a trama engasgada. Há também histórias de nações esmagadas por figuras que mobilizam o ódio com uma mão e a "salvação" com a outra. Provocar o capachismo é simples, tão simples e fácil que sequer parece verdade. Esse é o nosso drama e o drama de diversas pessoas, um sequestro que começa com um pé na porta.

Uma vez que cedemos a um pequeno favor, após o primeiro sim, todos os outros são mais fáceis. Acolhemos um pedido inicial e depois ficamos constrangidos de negar os próximos. A saída fica difícil, pois a pessoa já se comprometeu de tantas formas, já disse tantas coisas e aceitou tantos absurdos. O nome dessa abordagem é Pé na porta, um assalto que tem sucesso entre aqueles que confiam sem desconfiar, ou seja, qualquer um de nós. Afinal, a confiança nos é natural, pois sem ela nada floresce.

Quando entregamos um filho aos cuidados de alguém, confiamos que tal pessoa agirá de boa vontade. Quando lemos uma notícia, confiamos que a informação veiculada está correta. Quando uma mulher está parindo, ela confia na boa vontade dos médicos. Porém, confiamos desconhecendo que do outro lado pode haver má vontade com a confiança dada. Nada disso é evidente. Em relações autoritárias o vínculo é construído de modo furtivo, gradual e camuflado por facetas de prazer. O que podemos diante disso?

Se há CPI para investigar as negligências de um presidente, há a denúncia para impedir o sofrimento do próximo. Se pessoas comuns podem fazer atrocidades, deve haver pessoas dispostas a evitá-las. Heróis banais: anônimos que metem a colher na briga de marido e mulher, que desagradam uma maioria para proteger um indivíduo e que ao ver um olhar de criança assustada não se esquivam do compromisso de ajudá-la. Heroísmo de verdade é estar disposto a dar um pé na porta para derrubar cativeiros.


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