Partidas e chegadas

10 de Abril de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Foram quatro anos de dedicação, trabalho e lindas parcerias construídas em encontros e despedidas no Rio de Janeiro, Buenos Aires, La Plata, Montevidéu, Porto Alegre, Rio Grande e Pelotas. Rico manantial que nos chega em forma de candombes, rock, tango, maxixe, frevo e vidala entre tantos ritmos e levadas que nos traduzem como povo da américa evangélica de ridículos tiranos, de carnaval, paixão, alheamento, infância e contradição. Um tanto de Macunaíma, outro tanto de fé, meio callejón sin salida. Deus e o diabo nas terras do sul, indo ao culto, forrozeando e mateando juntos, a liberdade cercada de alambrados e jagunços, mais ou menos isso.

O poeta escreve: mas é como tentar cercar os raios de sol e o minuano, não é? Sempre se dá um jeito de oxigenar as cabeças e os corações. Guilherme Vieira, guri bom de viola, da palavra e inquieto, é o grande criador e responsável, em tempos de ovações à irresponsabilidade, por um dos discos mais instigantes lançados neste início de ano na plataforma do Spotify. Viagem, que é o nome do disco, traduz o percurso e o olhar sensível de Guilherme que vem em viagem e cruzando, em gerúndio de intenção e gesto, o curso de música na UFRGS, o violão erudito, o mestrado, o grupo de chorinho, a docência no curso de música da UFPel, o demorado pouso na capital argentina e que vai formar os matizes deste disco fenomenal: "Devanea, recalcula y ya vuelve a poner marcha atrás, bien como avanza, frena. Siga el baile, sigue todo. Pasa y pasará".

O disco abre com o maravilhoso choro Pedrada na cabeça e encerra com Behind Cloud 9, uma homenagem a George Harrison, um dos Beatles que amamos tanto: "Open hearts to give love. It takes so long. It means so much". Os arranjos das doze músicas que compõe o disco são extraordinários. A presença dos metais, sax, flauta, trombone e trompetes, dão um toque especial. Ouçam Terrinha agreste e irão entender por que escrevo isso: "No olho quente desse fogo cruzado, nesse calor danado eu fico a me perguntar, se o lado humano não vai ter mais horário em qualquer calendário, nesse itinerário de sangue e de dor". Os metais rasgam. As percussões ou cozinha, aquilo que normalmente dá o balanço, sacode a poeira, as cadeiras e dá a volta por cima, tambores, bateria, pandeiros, legueros estão para nos indicar o caminho: dificilmente quem curte a boa música é ruim da cabeça.

Muitas palmas para todos os instrumentistas do disco. Evoé! É um disco Para todos, e que o Chico Buarque e o Guilherme Vieira nos resgatem. Multi-instrumentista de primeira, ouviremos o violão de sete cordas em Arriba del tablado, "Hoy va a ser siempre, parece que por siempre será carnaval"; em Partida y llegada; em Nada nunca se termina. Ouviremos o bandolim em Velho canoeiro, "Velho Canoeiro que me ensinou a nadar, me apelidou de menino e me fez destemido ao mar"; na preguiçosa e linda Preguiçoso; em Saindo da lama. Os arranjos vocais também ganham destaque.

Guilherme se revela um baita compositor, arranjador e cantor. Seu timbre e forma de cantar me lembra o argentino Spinetta. Uma ótima referência. Viagem é um disco imprescindível e disponível na plataforma Spotify. As mixagens foram feitas por André Paz e João Ferraz. A masterização, minha nossa, feita pelo melhor de todos: Marcos Abreu. O selo é da Escápula Records, nascida aqui em Pelotas, como o Guilherme. Só gente boa. Uma mesa farta, uma linda viagem. Agora é ouvir com atenção. Y una copita de vino malbec. En hora buena, Guilherme.


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