Artigo

Papai Noel existe

Depois que passei a ser a Mamãe Noel, então, mais a convicção se firmou: "Papai Noel não existe"

29 de Dezembro de 2012 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Marta Fernandes de Sousa Costa, escritora

Deixei de acreditar em Papai Noel, há muito tempo. E olhe que era bom, quando acreditava, porque isso me dava o direito de pedir o que desejasse, embora tivesse que ouvir a explicação de que a bicicleta desejada podia furar o saco e por essa razão não viria, entre outros contratempos que se devia poupar ao Bom Velhinho.

Depois que passei a ser a Mamãe Noel, então, mais a convicção se firmou: "Papai Noel não existe" - conformei-me, ao assumir o papel, como fazem os adultos, obrigados pelas circunstâncias.

Mas, neste ano de 2012, descobri que estava enganada: Papai Noel existe! E o melhor é que lê pensamentos; talvez até tenha um radar para descobrir os desejos de quem deixou de manifestá-los em cartinhas, mas não desistiu de desejar.

Após um ano difícil, cheio de altos e baixos na área da saúde (mais baixos que altos), de repente me deu um cansaço de lutar contra a maré e tudo que pedi ao médico foi parar o tratamento (com vários efeitos colaterais), para lembrar a sensação de ser uma pessoa normal e usufruir das festas de final de ano, com a animação antiga. De inhapa, se não fosse pedir demais, gostaria de estender a pausa até o final de fevereiro, para curtir a reunião dos filhos e netos, aproveitar a temporada na fazenda e por ali o pensamento voou, sem que fosse manifestado, em toda a sua extensão.

Na ocasião - como com louco não se discute - o médico sugeriu uma semana de férias, depois se falaria no assunto. Saí do consultório feliz como menino no último dia do ano letivo; só faltou jogar pro alto os resultados das tomografias e exames de sangue. Férias, liberdade! Adeus, cansaço - pensei. E aproveitei cada minuto da semana presenteada, apesar do pique escasso, pois os efeitos da medicação precisariam de tempo para desaparecer.

Mas, no retorno das férias, a realidade me pegou pelo braço: os exames estavam ótimos, o tratamento parecia estar dando certo; era preciso seguir o cronograma, com alguns reajustes. E quem sou eu pra discutir decisões médicas? Ainda como aquele menino doido pra jogar tudo longe e correr pro campinho de futebol, recolhi as ideias estapafúrdias e me dispus a fazer o tema de casa.

Só que os reajustes na medicação funcionaram, em termos de cansaço e desânimo, e logo me vi programando o Natal, como sempre: comprando presentes, organizando a ceia, bem como a pessoa normal que eu desejava tanto voltar a ser. Imaginei se o cansaço estaria à espreita, esperando para me nocautear, por isso, apurei o passo, antes que me jogasse no chão, só para se exibir. E vá que os tais efeitos colaterais sejam como aqueles monstros que se alimentam da fraqueza dos circunstantes? Melhor ignorá-los, pensei, como se faz com gente inconveniente - pelo menos, enquanto for possível. Assim foi feito e o Natal chegou, trazendo sorrisos de crianças, abraços amigos, encontros felizes e a alegria por ter conseguido realizá-lo, "como uma pessoa normal". Foi nesse momento que compreendi: Papai Noel existe e, quando quer, pode ser muito bonzinho.

Neste ano, acho que ele quis se redimir, pois, além de captar o desejo no ar, não alegou a fragilidade do saco ou o peso pra carregar.
Mas como, por aí, há muita gente precisada de uma força extra, vou lhe enviar a mensagem de que cuide dos outros, que aqui está tudo bem, obrigada.


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