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Os zuavos baianos

17 de Outubro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima, colaborador

Na Guerra do Paraguai, ciosos e orgulhosos de si, os gaúchos demonstravam grande desprezo pelos irmãos de outras regiões que, amalgamados, combatiam juntamente com eles o exército inimigo. Para os orgulhosos cavaleiros do sul, que menosprezavam a infantaria, somente os filhos do Rio Grande sabiam lutar e a eles cabia enfrentar os guerreiros guaranis. Os baianos - e todos aqueles que não soubessem montar a cavalo nem tivessem nascido no Rio Grande - eram vítimas de uma quadrinha que ressaltava sua pouca resistência ao minuano, o vento frio e cortante do sul: "Mandai, mãe de Deus, mais uns dias de minuano, que é pra acabar com tudo que é baiano". 

Numa vingança pueril, os baianos, ou seja, os demais brasileiros, apelidaram os gaúchos de "colhões entre parênteses", porque estes, quando não estavam a cavalo, pareciam enormes insetos com as pernas sempre abertas por causa da posição do cavaleiro. Integrar a infantaria era considerado indigno pelos guascas, que jamais de deslocavam sem seus "pingos", como denominavam os cavalos, que faziam questão de manter sempre limpos, escovados e enfeitados. Não é à toa que Garibaldi, que combateu ao lado dos farroupilhas na Revolução Federalista, considerava a cavalaria gaúcha a melhor do mundo.

Deste apelido generalizado de baianos, escapavam somente poucos dos integrantes do Exército. Um deles era o coronel Vitorino Monteiro. Pernambucano de origem, Vitorino combatera quase toda a sua vida no sul. Assim, jamais seria apelidado de baiano, como era voz corrente na cavalaria gaúcha. Dizia o conde d´Eu sobre os gaúchos: "Para os gaúchos, só há três classes de habitantes: rio-grandense ou filho do país, castelhano ou hispano-americano, e baiano. O baiano é um ser inferior porque não sabe manejar bolas, nem laço, nem se tem como centauro e não entende por desonra andar a pé".

E por falar em baianos, uma das mais curiosas tropas brasileiras durante o conflito paraguaio foi a dos zuavos baianos, pelotão de soldados e oficiais negros cujo uniforme era baseado nos zuavos da Argélia. A Primeira Companhia dos Zuavos participou do cerco de Uruguaiana. "Era gente forte e brava", descreveu Dionísio Cerqueira. Porém, a tropa foi desfeita pelo general Osório no acampamento da Lagoa Brava, no território argentino de Corrientes. Os soldados foram mandados para trabalhar como serventes nos hospitais militares ou passaram a integrar outros batalhões. "Era a mais linda tropa do Exército brasileiro", escreveu o conde d´Eu. Aliás, em Viagem Militar ao Rio Grande do Sul, escreveu o conde: "Compõe-se exclusivamente de negros; brancos, indígenas ou mulatos são dela excluídos. Os oficiais são todos negros, negros retintos, e nem por isso são piores oficiais; pelo contrário. Estive propositadamente a conversar durante muito tempo com eles. Estão inteiramente a par de todos os pormenores do seu serviço e orgulhosos do seu batalhão. Deram a esses zuavos um uniforme vistoso, que muito bem diz com a cor de sua pele: calça encarnada, colete verde com galões amarelos, cinta encarnada, jaqueta azul, pescoço descoberto, fez encarnado. A supressão da gola, que os homens de cor muitas vezes não sabem ajustar convenientemente, é uma ideia felicíssima. Só lamento que o uniforme não tenha sido completado com polainas brancas. O traje dos oficiais não tem de comum com os dos soldados senão a calça encarnada; vestem uma farda azul e têm no quepe as iniciais Z.B., pois que estes zuavos não foram incluídos na numeração geral dos corpos de Voluntários".


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