Ponto de Vista

Os vitalícios também morrem

O mais recente aspirante a vitalício a morrer foi Hugo Chávez, da Venezuela

27 de Março de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Carlos Gil Turnes, colaborador

Aqueles de minha geração, os que nascemos ao redor da Segunda Guerra Mundial, fomos testemunhas da morte de vários governantes vitalícios, alguns em pleno exercício de sua vitaliciedade, como Stalin na União Soviética, François Duvalier no Haiti, Franco na Espanha e Kim Jong-il na Coreia do Norte e também de outros que foram depostos por vias pacíficas ou violentas sem poder culminar suas ambições de vitaliciedade, entre eles monarcas como o rei Farouk do Egito e o xá Reza Pahlavy do Irã, e de outros aspirantes a monarcas como Hitler na Alemanha, Mussolini na Itália, Rafael Trujillo na República Dominicana, os Somoza na Nicarágua, Jean Claude Duvalier no Haiti, Stroessner no Paraguai, Pinochet no Chile e Hosni Mubarak no Egito, entre outros. A história está repleta destes personagens, basta lembrar como exemplos Luís XVI e Napoleão Bonaparte.

O mais recente aspirante a vitalício a morrer foi Hugo Chávez, da Venezuela. Por essas surpresas da história, morreu no dia do sexagésimo aniversário da morte de Josef Stalin, o ditador que comandou a União Soviética desde 1922 até sua morte, o 5 de março de 1953. Por coincidência da história, sua morte foi um mistério enquanto seu aparelho de governo se organizava para continuar no poder; aliás, como ocorreu também com Stalin e Franco. Quando Hugo Chávez, então aspirante a presidente vitalício da Venezuela, logrou criar o caminho para a vitaliciedade ao conseguir pelo Referendo Constitucional de 2009 que todos os cargos eletivos pudessem ser reeleitos indefinidamente, escrevi um artigo intitulado Bolívar, Chávez e os vitalícios, onde mostrava que a ideia de uma presidência vitalícia, que seria herdada também vitaliciamente pelo vice-presidente, não era dele senão do próprio Simon Bolívar que a estampou com sua letra no projeto da primeira constituição da Bolívia, que, a pesar da enorme influencia do herói venezuelano, na foi aprovada. “O presidente da República vem a ser em nossa Constituição como o Sol que, firme em seu centro, da vida ao Universo... Esta suprema Autoridade deve ser perpétua... Para Bolívia este ponto é o presidente vitalício”, disse ante o Congresso Constituinte da Bolívia em 1825. É possível que a própria experiência juvenil de Bolívar, que quando morava na Europa assistiu às duas coroações de Napoleão, lhe houvesse levado a simpatizar com os governos vitalícios em lugar de adotar o novo sistema de governo inaugurado pelos fundadores dos Estados Unidos de América um par de décadas antes que Napoleão tentasse ser o imperador da Europa.

Embora não todos os mencionados utilizassem os mesmos métodos para vitaliciedadeno poder, cada um tem sua história de truculência, desrespeito pelos direitos humanos, perseguição dos opositores e promoção da imagem pessoal. Continuo acreditando que enquanto as sociedades não consigam se organizar em partidos políticos com programas definidos e com estruturas democráticas onde o programa seja mais importante que aqueles que o deverão implementar, seguiremos com a ilusão que vitalícios salvadores atenderão às expectativas das nações.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados