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Os passos históricos de Donald Trump

05 de Julho de 2019 - 07h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Cássio Furtado - Professor e jornalista

Na última semana, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, caminhou alguns metros antes de fazer história, tornando-se o primeiro presidente dos EUA a pisar na Coreia do Norte. Ao seu lado estava Kim Jong-Un, líder da Coreia do Norte, com quem Trump vem tendo uma relação surpreendentemente próxima e amigável no último ano.

O presidente estadunidense estava no encontro do G-20, no Japão, quando aproveitou a presença na região para reunir-se com o ditador norte-coreano pela terceira vez. A reunião entre Trump e Kim ocorreu em Panmunjon, na zona desmilitarizada que separa a Coreia do Sul da Coreia do Norte. O local também está na história por ter sido assinado lá o armistício entre as Coreias ao final da Guerra da Coreia, em 1953.

Em 2018, os dois se encontraram em Singapura, uma cidade-estado asiática riquíssima. Depois tiveram um segundo encontro no Vietnã, em fevereiro desse ano. Em ambos, buscaram estreitar as relações entre os dois países, historicamente rivais durante o período de Guerra Fria.

Durante mais de quatro décadas, EUA e Coreia do Norte estiveram em lados opostos. Os EUA lideravam o bloco capitalista, e eram aliados da Coreia do Sul, que seguia a mesma ideologia. A Coreia do Norte, por outro lado, era do bloco socialista e aliada da União Soviética.

Em 2018, em Singapura, os dois países assinaram um acordo com quatro pontos. O principal deles, é claro, consiste no compromisso norte-coreano com o desmantelamento de seu programa nuclear bélico. Além disso, EUA e Coreia do Norte reiteraram o respeito mútuo, o compromisso com a paz na Península Coreana, e com a repatriação dos restos mortais de combatentes mortos na Guerra da Coreia.

Hoje, o objetivo principal de Trump é garantir o cumprimento do primeiro ponto do acordo - o fim do programa nuclear norte-coreano.

A Coreia do Norte tornou-se um poder nuclear em 2006. Os norte-coreanos, nos últimos 13 anos, realizaram seis testes nucleares, levando ao isolamento quase que completo do país, debilitado por inúmeras punições aplicadas pela comunidade internacional. Mas é fato que as sanções não estavam mais surtindo efeito, tanto é que a maioria dos testes de foguetes, mísseis e armas nucleares ocorreu nos últimos anos, justamente com a intensificação das punições impostas ao país.

Por anos, os EUA e a comunidade internacional pouco fizeram além da imposição de sanções. Até que, há pouco mais de um ano, a improvável reaproximação aconteceu. O responsável pelo processo de paz entre os dois países também é dos mais inesperados: Donald Trump. Quando assumiu a presidência dos EUA, em janeiro de 2017, Trump adotou uma postura agressiva e ameaçadora com a Coreia do Norte e com seu ditador. E teria sido justamente essa postura a grande responsável pelos atuais avanços na região, após décadas de negociações frustradas.

Mundo afora, Trump tem recebido crédito pela guinada radical na postura da Coreia do Norte. De um país decidido a enfrentar a comunidade internacional, tornou-se bastante interessado em negociar com a Coreia do Sul e com os EUA.

Ainda é difícil afirmar as reais razões para a repentina mudança de postura da Coreia do Norte e de seu líder. Teria sido medo pela postura inicial agressiva e belicosa de Trump? Ou poderia ser uma orientação da China, seu principal parceiro econômico e político na atualidade?

Os acordos firmados até então são propositalmente vagos. Não colocam prazos exatos para o cumprimento dos objetivos. Por ora, devemos celebrar o momento histórico e esperar que ele renda frutos: a desnuclearização da região e um acordo de paz permanente entre as Coreias, com a participação serena e segura dos EUA nesse processo.

Caso esses objetivos sejam alcançados, os livros de história do futuro irão contar como Trump obteve algo que muitos antes dele tentaram e não conseguiram: que a Península Coreana, foco perene de conflitos, fosse transformada em uma zona de paz e estabilidade.


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