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Os desafios da agenda do clima no ano novo

19 de Janeiro de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por João Guilherme Sabino Ometto - engenheiro, membro da Academia Nacional de Agricultura

Acima das discussões, polêmicas e polarização ideológica sobre a questão ambiental, seria importante que, em 2022, o Brasil, assim como todos os países, desse atenção aos resultados da COP 26, realizada em Glasgow, na Escócia, em novembro último, para que pudéssemos avançar nessa agenda. A questão é ainda mais relevante se considerarmos um alerta da ONU, que passou um tanto despercebido: mesmo que totalmente implementado o conjunto de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) referendado pelas nações no evento, não será possível cumprir a meta de limitar a 1,5 grau Celsius o aumento da temperatura global em relação aos níveis pré-industriais. Para isso, seria necessário reduzir em 45% as emissões de carbono até 2030.

A situação é mais grave, pois, efetivadas as NDC atuais, o volume de carbono expelido não diminuirá, podendo até aumentar. É o que demonstrou análise apresentada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A última versão do Relatório de Lacunas de Emissões apontou que, a despeito dos compromissos e promessas feitos na COP 26, "a humanidade continua no caminho para um aumento catastrófico da temperatura bem acima dos dois graus Celsius".

Portanto, o desafio é redobrado. Além do cumprimento de todas as NDC, será preciso mais. Cabe lembrar que a indústria dos combustíveis fósseis continua recebendo trilhões de subsídios, segundo o FMI, e que alguns países seguem construindo plantas de carvão. Ainda há um longo caminho a percorrer na luta contra as mudanças climáticas. Nessa jornada, todas as soluções têm um ponto congruente: o etanol. Os dados técnicos sobre isso são taxativos.

Um carro movido a gasolina sem adição de álcool emite 145 gramas de dióxido de carbono (CO2) por quilômetro rodado; o automóvel elétrico a bateria utilizada atualmente na Europa, 92 gramas; e um movido 100% a etanol, apenas 58 gramas. Além disso, a baixa emissão deste é propiciada pela tecnologia brasileira do motor flex, muito mais acessível ao consumidor. O etanol é quase neutro em emissões de gases do efeito estufa. Com as novas tecnologias da produção, tende em breve a se tornar neutro, ou até gerar emissão negativa, em especial porque sua fonte é renovável e os canaviais sequestram carbono da atmosfera durante a fase de crescimento da lavoura. O carro elétrico europeu utiliza energia de fonte nuclear e, em alguns casos, até mesmo de termoelétricas. Por isso, emite mais carbono do que o etanol, no cômputo de todos os processos.

Dados sobre o consumo de combustíveis, divulgados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), mostram que em 2020, considerando o anidro misturado à gasolina, e o hidratado utilizado nos motores, o etanol substituiu 47% de toda a gasolina consumida no Brasil; em São Paulo, foram 64%. Estes índices, inigualados em todo o mundo, são resultado da opção dos consumidores propiciada pelo carro flex.

Além disso, o etanol gera emissão zero de material particulado. O resultado é que, segundo especialistas do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp, em 2000 registravam-se na capital paulista 60 microgramas de partículas por metro cúbico de ar; hoje, são 19, abaixo do índice de 20 recomendado pela OMS. Nesses 20 anos, a frota existente cresceu 80%, fator que torna a redução nominal dos poluentes ainda mais expressiva.

Muito além do discurso e das promessas, é urgente adotar medidas concretas e eficazes para conter as mudanças climáticas, para evitar as graves consequências previstas: até 2050, 1,6 bilhão de habitantes das cidades estarão expostos a temperaturas muito elevadas e a subida do nível do mar e enchentes costeiras afetarão 800 milhões. Combustíveis não fósseis e de fontes renováveis, fim do desmatamento ilegal, regulamentação definitiva dos créditos de carbono, proteção dos mananciais, bom uso e ocupação correta do solo e produção sustentável não são questões políticas, mas de sobrevivência.


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