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Os Campos Neutrais

23 de Junho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Lênin Landgraf, mestrando em História (PPGH/UFPel)
leninplandgraf@hotmail.com

Rio Grande, a cidade mais antiga do Estado, fundada em 1737, possui inúmeros fatos históricos, lendas, contos e tudo mais que uma cidade tão antiga e tradicional pode oferecer. Possuímos a Câmara de Vereadores mais antiga do Estado, a Biblioteca mais antiga do Estado, a Câmara do Comércio mais antiga do Estado e a quarta mais antiga do Brasil, um dos maiores portos do país, a maior praça do interior do Estado, o clube de futebol mais antigo do Brasil, inúmeros museus com acervos magníficos e tantas outras entidades pioneiras e com grande destaque. É preciso ter orgulho de Rio Grande. Acontece que, infelizmente, grande maioria dessas narrativas e histórias acabam esquecidas e muitas sequer estão devidamente registradas, cabendo aos mais antigos a preservação e o repasse desta carga histórica às novas gerações.

Nesse contexto situam-se as conversas que tenho, quase que diariamente, com o professor João Marinônio Carneiro Lages, que mais parece uma enciclopédia do que um professor. A vida e obra do professor Lages, que por sinal são espetaculares, ficam para um próximo artigo. Em uma dessas conversas o assunto que veio à tona foi o dos "Campos Neutrais", tema esquecido pela população da região sul, inclusive por professores de história e historiadores.

A cidade do Rio Grande, como já dito, foi fundada em 1737, pelos portugueses, sob comando do Brigadeiro José da Silva Paes, inicialmente com o intuito de prestar apoio a Colônia de Sacramento e garantir o controle sobre a Barra do Rio Grande, vital para o acesso ao interior. Acontece que, em 1763 os espanhóis invadiram a cidade, expulsando os lusitanos aqui presentes e tomando para si o controle de Rio Grande. É sabido que a relação luso-espanhol era conturbada, gerando ao longo do tempo diversos conflitos. Após treze anos, em 1776, os portugueses conseguem retomar a cidade do Rio Grande, expulsando, dessa vez, os espanhóis da região. O evento, que ficou conhecido com a Restauração do Rio Grande, foi chefiado pelo General Böhm, marcando um grande triunfo militar para os portugueses.

No ano seguinte, em 1777, buscando aliviar a constante tensão existente entre os luso-espanhóis, Inglaterra e França intermediam o Tratado de Santo Ildefonso. Firmou o tratado, a posse da Colônia de Sacramento para os espanhóis e a soberania de Portugal sobre a margem esquerda do Rio da Prata. Para evitar novos embates militares, são criados os Campos Neutrais, que tratava-se de uma zona neutra, que compreendia a área dos banhados do Taim até o Arroio Chuí e da Lagoa Mirim até o Oceano. Nesse território, nem espanhóis nem portugueses poderiam construir ou ocupar para qualquer fim. Os Campos Neutrais cumpriram seu papel durante algum tempo, entretanto, com o passar do tempo, Portugal concedeu sesmarias em terras neutras.

Esse fato histórico, assim como tantos outros acontecidos em nossa região, caiu no esquecimento e sequer é tratado em nossas escolas. Embora pareça redundante, é preciso que valorizemos nossa história. Entretanto, é necessário ainda mais que essa valorização parta de nossas autoridades (prefeito, secretários, vereadores, etc.) e seja abraçada pela comunidade.


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