Artigo

Os 80 anos de um profeta transfigurado

28 de Maio de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Gustavo Jaccottet, advogado
gustavo@jaccottet.adv.br

Bob Dylan fez 80 anos no último dia 24 de Maio. É daqueles casos em que lidamos com uma unanimidade; todos reconhecem, pelo menos, uma virtude em sua carreira, de letrista folk a escritor; um ponto fora da curva. O conjunto da sua obra, a mim, soa como a estratificação que todo ser passa, da infância à melhor idade, com requintes de metamorfoses passageiras.

Protestou nas suas primeiras letras pela música do dia a dia de, daí o nome Folk, fazendo-se ouvir em todos os nichos, da imprensa amarela aos editoriais. Digo que só lhe fata a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Copou todos os prêmios possíveis a um artista, dos quais destaco o Nobel da Literatura, alguns Grammy, o Oscar e o Pulitzer. Esse "conjunto da obra" observado pela Academia Nobel criou, se me é permitido dizer, uma "poética musicada".

Nascido como Robert Allen Zimmerman, judeu, porém católico por opção, Bob Dylan, por volta de 1964, sofreu um acidente de moto e matou a sua personalidade de "músico de protesto", cito: "ele já tinha sumido e ninguém havia compreendido". Seus admiradores buscavam em suas letras algo que estava morto na música comum, na música política: a honestidade. Esta integridade foi dilacerada por ele com o álbum Highway 61 Revisited (1965), à música Like a Rolling Stone.

Bono Vox disse que "Dylan conseguiu em 'Like a Rolling Stone' um perfeito equilíbrio entre mundos bastante distintos. Não me importo particularmente em saber para quem a música é _ embora eu tenha conhecido algumas pessoas que alegam ser sobre elas. O gozado é que algumas não haviam nem nascido em 1965". Passados quase 60 anos desde o lançamento do single, depois de ser acusado de plágio, Dylan desafia a imaginação do público e traz, de novo, os holofotes para si. Não parou de produzir, tampouco de compor e nunca aceitou a acusação de plágio. Quando questionado sobre, desafiou todos os seus opositores com a passagem da Bíblia em que Cristo se transfigura: "Você já ouviu falar de transfiguração? Bom, você está olhando para alguém que foi transfigurado".

A sentença causou espanto no entrevistador, Mikal Gilmore, já que se pode esperar qualquer coisa em uma entrevista com Dylan, mas uma frase de tal sagacidade recebeu a seguinte conclusão: "Você pode aprender sobre isso na Igreja católica, você pode aprender em alguns velhos livros místicos, mas é um conceito real. Então, quando você faz as suas perguntas, você está perguntando para uma pessoa que morreu há muito tempo. Para uma pessoa que não existe". Em síntese, quem viu Bob Dylan nos anos 60 e o revê hoje está vendo outra pessoa, pois como ele mesmo diz, "não estou lá, eu já fui".

Bob Dylan é uma pedra que rola, sem rumo, cujos anos de carreira desafiam a lógica da cultura pop e da natureza de um mundo globalizado, cheio de multiversos. Falamos de muitos mundos dentro de cada ser humano e se a resposta não aparece, paciência, ela vem junto do vento e só ele dirá se houve plágio ou não. Quem sabe Dylan tenha plagiado, mas feito plágio de si mesmo, de uma de suas múltiplas formas de viver. A resposta está em algum universo deste mundo que detêm multiversos, quando o universal já foi abandonado, até porque, não custa repetir, agora no original: "I was there to help me butI'mnotthere, I'm gone".


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