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Ópera brasileira contemporânea

17 de Dezembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Thiago Perdigão, compositor e escritor

Desde a renascença italiana, isto é, há cerca de quinhentos anos atrás, tem o ocidente convivido com aquilo que, através dos séculos, foi denominado "ópera", e que nasceu da necessidade de se unir as várias artes dentro de uma só, espelhando a fusão das artes que uma vez pôde existir na antiguidade, por sua vez conhecida como "drama musical grego", espetáculo no qual os gregos uniam teatro, música, poesia, dança e meios arquitetônicos, e do qual restaram para nós sobretudo os textos teatrais e poéticos de grandes autores como Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, bem como amplas construções arquitetônicas.

Foi, pois, imbuída de tal espírito, que a ópera moderna se desenvolveu, ora expandindo dentro de si a música, ampliando seu caráter instrumental, ora a poesia e o canto, ampliando as possibilidades e importância do canto dentro do todo dramático, ora criando novos meios cenográficos e discussões acerca de como representar melhor um texto dramático em termos de cenário, ação, musicalidade, expressividade e emoção.

E se na Europa tivemos muitos compositores envolvidos em todo este processo, de Monteverdi até Verdi, no Brasil não foi diferente, e vários dos famosos compositores tiveram parte de sua obra voltada à ópera, como foi o caso de Carlos Gomes, Alberto Nepomuceno, Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, entre outros. Tal cultura permaneceu, assim, até os dias de hoje, e um exemplo disso é o Festival Amazonas de ópera, principal evento voltado a esta arte no Brasil, e que fará em 2021 uma edição especial para os tempos de pandemia, de modo a transmitir on-line uma ampla programação que vai desde palestras sobre temas que envolvem a ópera, até a apresentação de encomendas feitas a compositores brasileiros contemporâneos.

Entre tais compositores, vale destacar, por exemplo, o paranaense Eduardo Frigatti, que compôs para o festival a ópera denominada "O corvo", com libreto adaptado pelo próprio compositor a partir da tradução feita por Machado de Assis do texto homônimo de Edgar Allan Poe. Devido às limitações orquestrais impostas pela pandemia, a ópera foi composta para um grupo de câmara com 16 instrumentistas, com o acréscimo de um coro de 16 vozes, que representa a voz do corvo e a voz da consciência do personagem principal, e um tenor (solista), no papel principal. Em termos estéticos, Frigatti optou por influências que vão desde o expressionismo até a estética da sonoridade, que perpassou todo o século XX, alçando, assim, ampla gama de possibilidades musicais e expressivas.

A composição de óperas contemporâneas e a criação e realização de festivais são meios de suma importância para a continuidade de semelhante tradição artística que, conforme expusemos inicialmente, emergiu enquanto cerne mesmo da cultura ocidental, através do drama musical grego, do qual se originaram as artes mais variadas, conforme hoje as conhecemos. A ópera, seja a antiga, seja a contemporânea, enfim, continua a demonstrar nossa necessidade de ver e ouvir, uma vez mais, o potencial das várias artes em seu bailado comum, unidas dentro de um mesmo todo estético e dando as mãos em cima do mesmo palco.


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