Artigo

O vir-a-ser heraclitiano e o ser parmenídeo

15 de Agosto de 2020 - 08h04 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sérgio Cruz Lima, colaborador

Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eleia, filósofos pré-socráticos nascidos na Magna Grécia, defendem doutrinas filosóficas radicalmente opostas. Se Heráclito é o filósofo do vir-a-ser, do devir, Parmênides é o filósofo do ser.

Um quadro razoavelmente coerente do pensamento filosófico de Heráclito pode ser construído dos fragmentos que sobreviveram nas obras de outros pensadores gregos. Ele comparou o mundo ao fogo, possivelmente querendo assinalar que todas as coisas estão em contínuo processo de fluxo. Segundo Platão, Heráclito disse que não se pode entrar duas vezes nas águas de um mesmo rio, isto é, coisas e estados no Universo não permanecem eternamente os mesmos, e entidades que a nós parecem duradouras estão sempre se tornando outra coisa. O filósofo enfatizou o conflito como a força que impele o processo de vir-a-ser, mas ao mesmo tempo, sob essa luta constante, há unidade no logos. A ideia de Heráclito parece ser que a luta que caracteriza a realidade é unificada numa harmonia cósmica racional, que pode ser apreendida pela razão humana e pelo debate lógico. Essa ordem ou lei cósmica unifica opostos, pois a harmonia subjaz ao desacordo. Nada permanece o mesmo, pois a lei do Universo é de constante conflito, mudança e renovação, assim como o sol renasce a cada dia.

De um modo geral, a doutrina de Heráclito pode ser resumida em três princípios: 1. A essência, o elemento primordial da realidade, é o vir-a-ser, o fogo: tudo muda, a realidade está sujeita a um vir-a-ser contínuo. 2. O vir-a-ser, o devir, é antítese, luta, um revezar-se de vida e de morte. 3. O vir-a-ser e esta oposição são reconduzidos à estabilidade e à unidade pela harmonia e pela sabedoria universais, que determinam o acordo entre as oposições.

Parmênides acata o ser uno e imutável de Xenófanes, mas despoja-o dos atributos divinos e religiosos. Em sua obra “Sobre a natureza”, inicia a sua argumentação apresentando ao leitor uma oposição entre “o que é” e “o que não é”, e afirma que como “o que não é” não existe, ele não pode ser objeto de pensamento. Explora, então, a natureza do que é, e afirma que ele não pode ser criado nem destruído, já que algo não pode vir do nada. E conclui: a existência, pois, deve ser eterna. Qualquer mudança no ser é impossível, já que isso exigiria um movimento do que é para o que não é. Ademais, diz Parmênides, a mudança não está confinada apenas no reino temporal, pois o que é deve ser igualmente em toda parte, e assim não pode haver nenhuma diferenciação entre os objetos. O Universo é uno - imutável, ilimitado, indivisível. O filósofo distingue a ciência, que nos oferta a verdade, construída pela razão, da simples opinião, de onde se origina o erro, dependente do sentido. Para Parmênides, em síntese, a substância, princípio primeiro das coisas é o ser - uno, idêntico, eterno, imutável, limitado, determinado, concebido como uma esfera finita suspensa no vácuo.

A questão somente será futuramente resolvida por Aristóteles, que unirá as duas posições contraditórias ao formular a doutrina do Ato e Potência.


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