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O ultimato vergonhoso

25 de Maio de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Cássio Furtado, professor e jornalista

Nos últimos dias, em meio à pandemia do novo Coronavírus, o mundo tem assistido a uma briga entre os Estados Unidos da América e a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Sim, o país mais rico e poderoso do mundo e a organização encarregada pela coordenação internacional para combate à pandemia estão em pleno conflito.

Isso seria impensável em outros tempos.

Mas em outros tempos Donald Trump não seria presidente dos EUA, assim como não teria incentivado a população estadunidense a ingerir desinfetantes e produtos de limpeza em geral para combater o novo Coronavírus.

Na segunda-feira (18), Trump enviou uma carta ao diretor-geral da OMS, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, dando um ultimato ao organismo internacional.

De acordo com Trump, ou a OMS promove reformas na sua estrutura e se afasta da China ou, em 30 dias, os EUA irão cortar completamente o repasse de verbas para o organismo global, além de se retirar dele.

A ameaça aberta por parte de Trump vem após o congelamento dos repasses à OMS, o que é fatal para o funcionamento da organização.

Na soma dos anos de 2018 e 2019, os EUA contribuíram US$ 893 milhões para o orçamento da OMS _ inclusas contribuições para o funcionamento da organização em si e também destinações para programas específicos.

Ou seja, os EUA são os maiores contribuintes para a OMS, e suas doações representam cerca de 20% do orçamento. O Reino Unido, o segundo país que mais contribui, aporta menos da metade do valor dos EUA.

E o perverso em tudo é que Trump sabe desses números.

Pior ainda: joga com eles para pressionar a organização a agir da forma como seu governo deseja, tendo como objetivo subordinar uma estrutura séria e vital para o mundo aos interesses políticos do momento.

Trump adota essa postura errática em meio ao caos na saúde nos EUA, em que o total de mortos se aproxima dos 100 mil e o número de infectados ultrapassa 1,6 milhão.

A catástrofe que ora assola os EUA poderia ter sido, pelo menos em parte, evitada.

Cientistas renomados alertaram o presidente Donald Trump ainda em janeiro sobre o risco que os EUA corriam com a disseminação do novo Coronavírus na China e, em seguida, mundo afora.

Trump ignorou os apelos da comunidade científica, passando a atacar a China e a negar os riscos para a população de seu país.

Por semanas, o novo Coronavírus se alastrou mundo afora, sem que as autoridades dos EUA e de grande parte dos países tomassem atitudes mais drásticas.

Com fronteiras abertas e incontáveis voos diários entre os EUA e a Ásia e a Europa, os casos foram se multiplicando exponencialmente.

Quando Trump finalmente reconheceu a gravidade da pandemia, teve de ordenar o cancelamento dos voos de grande parte da Europa para os EUA e decretar medidas mais restritivas.

Nessa semana, o influente The Washington Post publicou um estudo que concluiu que, se o distanciamento social nos EUA tivesse começado uma semana antes, um total de 36,000 pessoas a menos teriam morrido.

Esse estudo, assim como outros, serão usados contra Trump na campanha presidencial que já começou.

O candidato oposicionista, Joe Biden, sabe que atacar a gestão pífia da Casa Branca no que tange à pandemia será a chave para a vitória.

Trump precisava encontrar um inimigo externo, e esse inimigo é a Organização Mundial de Saúde.

É uma estratégia com poucas chances de dar certo. Mais que isso: é uma tática que brinca com vidas humanas, diminui o tamanho da Casa Branca e envergonha a todos nós.


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