Artigo

O sonho de Bolívar

24 de Agosto de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

Em 1492, Cristóvão Colombo reivindica a América para a coroa espanhola. A atitude do navegador abre caminho para a construção de um grande império que haverá de estender-se por cinco continentes. E para gerenciar as terras descobertas, os espanhóis contam com a estreita colaboração das elites locais. Na Venezuela, Simon Bolívar, nascido de pais aristocráticos e discípulo do erudito Simon Rodriguez que o apresenta aos ideais do iluminismo europeu, vê esse aspecto de seu império como uma fonte de dinamismo, mas também como uma potencial debilidade. 

Aos 16 anos, após completar o treinamento militar, Bolívar viaja pelo México, França e Espanha, país onde se casa. Na França, em 1804, testemunha a coroação de Napoleão, cerimônia que o impressiona. Idealista, inspirado pelas ideias nacionalistas que encontra na Europa, jura não descansar até que a América espanhola se liberte do domínio da Espanha. Em 1808, Napoleão invade a Espanha e coloca seu irmão José no trono dos Bourbon. O outrora poderoso império espanhol entra em decadência e começa a se liquefazer. Bolívar observa o fato e entende-o como uma feliz oportunidade para os países da América espanhola se libertarem do jugo do colonialismo. E a luta tem início. Ao cabo de 18 anos de luta pela liberdade política, Bolívar é exilado por um ano na Jamaica.

Conforme planeja o futuro, o líder revolucionário venezuelano avalia como poderá assegurar um Estado grande o suficiente para governar, mas pequeno a ponto de ofertar uma vida melhor para seu povo. E Bolívar trata do tema na "Carta de Jamaica", escrita em 1815. Nela, explica os reais motivos para repelir monarquias: os reinos expansionistas são guiados por monarcas com "desejo constante de aumentar suas posses". Por outro lado, escreve: "uma república limita-se a garantir sua preservação, prosperidade e glória". Acredita o líder americano que a América espanhola deve tornar-se 17 repúblicas independentes, cujos objetivos serão educar, auxiliar o povo em sua justa ambição e proteger os direitos dos cidadãos. Nenhuma dessas pequenas repúblicas deverá expandir as suas fronteiras, uma vez que isso demanda grandes recursos financeiros, sem vantagens expressivas. "Um Estado grande demais em si mesmo, ou em virtude de suas dependências, acaba, por fim, decadente", declara. E vai além. "Seu governo livre torna-se uma tirania, seus princípios fundadores são desrespeitados, e ele degenera em despotismo." E arremata: "Pequenas repúblicas haverão de perdurar; grandes repúblicas tendem ao império e à instabilidade".

As repúblicas independentes surgidas na América espanhola após as guerras de libertação que lidera - Equador, Colômbia, Venezuela, Panamá, Peru etc - refletem a visão bolivariana quanto ao seu tamanho, mas não quanto à sua liberdade, porquanto o poder político é monopolizado pelas elites locais. Nisso talvez elas tenham refletido os próprios instintos elitistas e as ambivalências do próprio Bolívar quanto a uma democracia plena. Desiludido com os resultados das revoluções que inspirou, o líder venezuelano falece em 1830, após ter sido forçado a se autodeclarar ditador do Estado da Grã-Colômbia, dois anos antes. A visão de Simon Bolívar ainda hoje é respeitada na América Latina, muito embora seu nome tenha sido mal apropriado por políticos ambiciosos - como é o caso da Venezuela dos ditadores Chávez e Maduro! - para sancionar ações que o próprio Bolívar teria certamente deplorado e visceralmente rejeitado.


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