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O racionalismo de Platão

10 de Abril de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

"A função dos governantes", afirma Platão em sua obra A República, "é assegurar que o povo leve uma vida digna, a qual exige habilidade intelectual e conhecimento da ética e da moralidade". Ora, acrescenta o discípulo de Sócrates: "Só os filósofos gozam de habilidade e conhecimento. Por isso mesmo, o poder político deve a eles ser confiado". E Platão, pouco simpático pela democracia, porquanto assistira ao suplício do mestre, conclui: "Até que os filósofos sejam reis, as cidades jamais estarão a salvo dos seus males". 

Para compreender-se o que o filósofo quer dizer com "males", urge ter-se presente o conceito grego de eudaimonia, ou seja, "vida digna", que é o marco vital para os antigos habitantes da Grécia. "Viver bem", para o grego dos tempos de Homero, não é uma simples questão de atingir o bem-estar material, honra ou prazer. É mais do que isso. É viver conforme as virtudes basilares: sabedoria, piedade e, sobretudo, justiça. O objetivo da polis, a cidade-estado grega, pensa Platão, é fomentar tais virtudes para que o cidadão tenha condições de alcançar essa "vida digna". Temas como a defesa da propriedade, liberdade e estabilidade somente serão valiosos se oportunizarem as condições que possibilitem ao cidadão viver bem. Ora, os governantes, quer numa monarquia, quer numa oligarquia, quer numa democracia, ao invés de pensar no bem da população e da polis tendem a agir de acordo com os seus interesses pessoais. Por isso, reitera o filósofo, somente há uma classe de pessoas que compreende o real significado da "vida digna": os filósofos. Daí a afirmação platônica inicial de que "até que os filósofos sejam reis - entenda-se governantes -, as polis - nações -, jamais estarão a salvo de seus males". 

E para melhor explicitar por que os filósofos deveriam ser reis, Platão vale-se da metáfora do navio do Estado, uma velha figura bastante conhecida dos estudantes dos cursos de Filosofia. O proprietário do navio, representante do povo, não sabe navegar. Os marinheiros, que simbolizam os políticos, digladiam-se entre si pelos favores do proprietário do navio. Por fim, o navegador, que sintetiza o filósofo, não está envolvido no litígio por poder. "Apesar de não desejá-lo", escreve Platão, "é ele o único capaz de navegar o navio no rumo certo". É o filósofo que detém o conhecimento adequado para governar de modo justo.

Os conceitos políticos de Platão, assimilados por Santo Agostinho e incorporados em tempos medievais à política da Igreja, são considerados por pensadores posteriores, entre eles o próprio Aristóteles, seu discípulo, como intoleravelmente elitistas e autocráticos. Mais: reprovados por muitos filósofos do mundo moderno, mesmo que esses conceitos lutem por estabelecer a democracia. Platão tem sido duramente criticado como alguém que ensinou um sistema de governo totalitário, ou pelo menos paternalista, governado por uma elite que alega conhecer o que é melhor para o povo. Hoje, porém, sua teoria central de uma elite política de "reis-filósofos" tem sido repensada por diversos pensadores políticos.


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