Artigo

O que se leva da vida é a vida que se levou

21 de Novembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

(Milagres do Barão de Itararé - Leandro Maia)

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

O tão longe era tema das paixões e das saudades sem fim, do poeta romântico fincado no cais do porto à espera da amada ou da carta que ela enviara meses antes. O amor e o beijo para sempre, não interessava a quilometragem geográfica ou de ideias. Hoje, não mais. Com as tecnologias de comunicação, que se desenvolvem à velocidade da luz, mesmo que distantes, estamos colados. Apaixonadas, poetas ou não. Talvez, colegas de trabalho, professoras e estudantes, futebol no estádio e torcida no sofá, namorados pelo Skype, reuniões sem mesa, Caetano fazendo shows e a gente assistindo em casa. Conforme a condição e a razão, dá uma sensação de realidade quase física, sempre que a gente quer, o coração pulsa, escuta e troca pensares. Olhares, sorrisos e temperos que cruzam montanhas, planícies, oceanos e distanciamentos.

A arte tem esse predicado e qualidade de desrespeitar fronteiras, geografias, obtusidades políticas e indiferenças. Se quisermos, leremos escritores da Índia, de Israel, da Polônia, do México, de Moçambique; se estivermos abertos ao mundo vasto mundo, vamos beber do jazz, do fado, do samba, do folk, da guarânia; se os olhos não estiverem fechados, irão se deliciar com pinturas e esculturas de todos os tempos e lugares; se tivermos força volitiva, nos encantaremos e seremos provocados pelo cinema e por muita arte cênica. A distância não impede mais nossos encontros.

"Toda estrela, amor, é companhia", canta Leandro Maia. Sensibilidade, inteligência e diligência. Vocês já viram, ouviram ou visitaram as Paisagens do Leandro? É longe não. Vem mais eu. Leandro é professor doutor do Curso de Música do Centro de Artes da UFPel e regente do Coral da universidade. Mas isso diz muito pouco sobre ele. Sim, de que é um baita professor, estudioso e pesquisador. O que move Leandro é o saber, o criar, o poetar, o musicar, o pulsar do coração, o amor, o quereres, o devir. Leandro é um dos melhores escritores-letristas de nosso tempo. Guimarães Rosa, Drummond, James Joyce, entre tantas referências da literatura e da poesia, aparecem cá e lá em suas composições. Leandro é um leitor insaciável, um compositor e violonista de muita técnica e inspiração, um parceiro, um amigo, um apreciador das artes e das ideias.

Seus três CDs: Palavreio, super premiado; Mandinho, para crianças e crianções, também super premiado; e Suíte Maria Bonita, feito com André Mehmari, genial e insubstituível, podem ser acessados no Spotify. Num clique. Ele também fez um lindo trabalho de compilação dos sambas de Dona Conceição como parte de seu doutorado. Virou show, virou vídeo. Nesse ano completa 20 anos de carreira e não era possível não comemorar, mesmo em tempos de pandemia. Como traduzir e ressignificar um trabalho tão lindo? O filme Paisagens é uma arrebatadora visita à trajetória do Leandro, para conhecer e admirar seu trabalho.

Para um mundo que está ficando chato, embora seja redondo, as canções de Leandro são um alívio, um tônico para despertar nossos sentidos e pensares adormecidos. E tudo ao alcance da mão e do olhar. A canção Milagres do Barão de Itararé, filmada na casa do fotógrafo Nauro Júnior, é um achado e o Papa Francisco vai se divertir. Em Diadorim, Maria Falkembach realiza uma performance extraordinária de nos paralisar. Guimarães é pura gratidão. Na belíssima Trem do Cerrado, Leandro homenageia seu irmão, Luís Antônio. Paisagens tem direção primorosa de Juliano Ambrosini e Nando Rossa. A fotografia é espetacular. Kikito e Palma de Ouro. Se o tempo passa e para, é para isso que eu vim, canta. Aqui do lado. Vou mais tu. Vem mais nóis. Bela escolha. Gracias, Leandro. Vida linda e amorosa! Evoé.

Assista Paisagens, o filme:


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