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O que pensam os outros

21 de Fevereiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Luís Rubira, professor do Departamento de Filosofia da UFPel

O que eles pensam, quando pensam, importa muito. Mas em geral, muitos pensam pouco ou pensam o que os outros já pensaram. Aquele ali, por exemplo, vive das aparências: ele se importa com que os outros pensam dele. Quando não consegue manter as aparências num nível de equivalência do que os outros pensam a seu respeito, ele então culpa seus pais, seus professores, culpa a sociedade. Culpa também sua ex-mulher, seus filhos e até mesmo seus amigos. Julga-se, em última análise, uma "vítima do sistema". Sim, ele é realmente uma vítima. Mas vítima do sistema de seus próprios pensamentos.

Que exista uma identidade entre pensamento e ser, isto é algo que Parmênides compreendeu na Grécia há mais de dois mil e quinhentos anos. Um século depois, na Índia, Buda também ensinava que "compreensão correta, pensamento correto" eram etapas imprescindíveis para atingir a Grande Sabedoria. Na modernidade, Descartes percorreu um longo caminho reflexivo para mostrar, novamente, a identidade entre pensamento e ser ("penso, logo sou"), algo que resultou na obra Discurso do método, cujo objetivo era "bem conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências". De lá para cá, muitos pensadores também insistiram nesta identidade e viram nela a certeza para não nos enredarmos nas aparências e não produzirmos opiniões a partir de impressões dos sentidos. Algo de tudo isto ressoa no título de um livro lançado há poucos anos pelo filósofo Giorgio Agamben: A potência do pensamento.

Conterrâneo (e quase contemporâneo) de Parmênides, Sófocles também mostrou que o pensamento, quando formulado a partir de juízos equivocados, conduz ao sofrimento. Édipo julgava estar certo. Tendo assimilado o pensamento (que chegou até ele por meio dos outros - no caso, por meio de um Oráculo) de que cometeria um crime contra seu pai e sua mãe, ele passa a acreditar na realidade deste pensamento e abandona o lugar em que vivia com seus entes queridos. No decurso dos acontecimentos, Édipo compreenderá que, embora o pensamento fosse correto, não se tratava de abandonar aqueles que ele julgava serem os seus pais (ele havia sido criado, sem saber, por pais adotivos). É quando então se instala a tragédia. A maior parte de nós somos Édipo: recebemos pensamentos que vêm dos outros, pensamos errado sobre nós e sobre os demais, não chegamos a confrontar nossos pensamentos com a realidade. Não em vão Freud usou o nome Édipo para nomear um de nossos principais complexos, algo que não diz respeito somente às relações "papai e mamãe", mas ao circuito de pensamentos que nos toma e que nos cega diante da realidade.

Pensar requer, em primeiro lugar, a disposição e a capacidade interna de sobrepesar os pensamentos em relação à realidade. Como o que está em circulação são sempre os velhos ou os novos pensamentos, pensar por conta própria exige que nos afastemos do que os outros pensam (e, por conseguinte, do regime de suas opiniões). Pensar implica, assim, disciplina, dureza contra si, amor pelo que em si e nas coisas há de mais profundo. Exige método, coragem. Em última análise, seria possível dizer que o sistema de "mercadorias" da alma, daquilo que constrói nossa identidade e pode nos tornar felizes ou infelizes, depende do sistema de pensamentos. Mas, ao contrário do regime de "mercadorias" que aprisiona ao consumo, o regime de pensamentos pode libertar nosso ser autêntico. Para isto, há que se ter uma atenção redobrada para pensar contra o que em nós ocupa a superfície: contra tudo o que os outros colocaram em nossos pensamentos sobre o mundo ou acerca de nós mesmos. O que pensam os outros importa pouco, a menos que estes outros possuam, de fato, uma capacidade maior de nos mostrarem uma forma de compreensão bem mais próxima da realidade.


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