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O poder do cigarro de roubar vidas

16 de Março de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Dario Pereira, estudante de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)

A relação causal entre cigarro e câncer de pulmão foi comprovada pelo clássico estudo de Doll e Hill, publicado em 1950. Posteriormente, vários estudos mostraram que o tabagismo também é fator de risco para diversas outras doenças, incluindo vários tipos de câncer (leucemia mieloide aguda, câncer de bexiga, câncer de pâncreas, câncer de fígado, câncer do colo do útero, câncer de esôfago, câncer nos rins, câncer de laringe, câncer na cavidade oral, câncer de faringe, câncer de estômago), doenças cardiovasculares, doença de Alzheimer, doenças autoimunes, disfunção erétil, menopausa precoce. O tabagismo também é associado a descolamento de placenta e a sofrimento fetal, inclusive para gestantes que inalam passivamente a fumaça do cigarro.

Em outro estudo sobre o tabagismo, Doll e colaboradores acompanharam um grupo de 34.439 homens de 1951 a 2004. Entre os resultados desse estudo, consta que cerca de metade a dois terços dos fumantes contínuos acabarão morrendo em consequência do seu hábito. Essas evidências expostas pela literatura científica levaram os países a adotarem políticas agressivas de combate ao tabagismo. Nos Estados Unidos houve investimentos massivos em campanhas contra o cigarro. O mesmo ocorreu com outros países desenvolvidos e em desenvolvimento.

No Brasil, nos últimos anos, a prevalência de fumantes caiu de 15,7%, em 2006, para 10,1%, em 2017, segundo o Ministério da Saúde. Essa queda é atribuída à implementação de políticas antitabagistas, como o aumento de impostos sobre o tabaco, a impressão de imagens chocantes nos maços de cigarros, a proibição de fumar em ambientes públicos fechados e a fixação de um preço mínimo para o cigarro.

A redução do número de fumantes observada em outros países comprova a eficácia de tais medidas. Uma pesquisa do Instituto Nacional do Câncer mostrou que mais de 60% dos fumantes afirmaram que já desejaram parar de fumar em função do preço do cigarro. Por outro lado, notou-se um crescimento do consumo de cigarros contrabandeados. Estima-se que atualmente um quarto dos cigarros consumidos no Brasil tenha origem no contrabando. Em razão disso, o combate ao comércio ilegal de produtos do tabaco tem sido incluído entre as ações prioritárias para o combate ao tabagismo no país.

Apesar de todos os esforços para combater o tabagismo, algumas estatísticas e projeções ainda são alarmantes: o hábito de fumar representa a principal causa de morte evitável no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS); dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) mostram que o cigarro
pode reduzir a expectativa de vida em até 20 anos; o fumo mata mais de seis milhões de pessoas por ano no mundo (no Brasil, o Inca estima em mais de 400 mortes por dia); ainda segundo o Inca, R$ 56,9 bilhões são desperdiçados por ano com despesas médicas e perda de produtividade; estima-se que somente em 2017, 73500 pessoas foram diagnosticadas com câncer provocado pelo tabagismo.

Portanto, a batalha da humanidade contra o tabagismo ainda não está vencida. Pelo contrário, ela mostra resiliência, cabendo à sociedade o aprimoramento das medidas usadas para combatê-las. Esse aprimoramento certamente passa pelo investimento nas próprias pessoas, no sentido de torná-las mais conhecedoras dos malefícios provocados pelo hábito de fumar. Afinal, não deve está claro para as pessoas o grande paradoxo que constitui o hábito de fumar, em que o produto consumido é responsável pela morte de mais da metade dos próprios consumidores.


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