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O papel da mulher na sociedade de hoje

06 de Maio de 2014 - 06h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Maria das Graças Gonçalves, coordenação executiva do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher

A mulher hoje tem uma enorme responsabilidade. A mulher hoje tem a responsabilidade de mostrar à sociedade quem ela é. Por quê? Porque a mulher de hoje é diferente da mulher de ontem. É outro papel, outro jeito de ser, de viver e de se relacionar.

Para nossas mães e nossas avós, tudo já estava estabelecido. A mulher cresce, casa e cuida da casa e dos filhos. O marido determina como as coisas têm que se organizar, estabelece limites, normas e regras, exige, cobra, disciplina e provê a família economicamente para que não falte nada. Assim é a ele resguardado o direito de estabelecer suas próprias regras e leis também para sua própria vida e de sua mulher. Como sua mulher era de sua propriedade, ele determinava que ela ficava em casa cuidando das crianças e ele podia sair e se divertir como os amigos ou com as “amigas”. A maioria das mulheres vivia com seu marido em um acordo tácito de que tudo estava bem assim, era “natural” que fosse assim. Ele podia, ela não podia, inclusive trabalhar, nem buscar a independência econômica ou a realização profissional.

A mulher deveria se realizar em casa, cuidando da casa e dos filhos. Essa era a sua vocação. Então, por trás de um grande homem sempre havia, diziam, uma grande mulher, que vivia a sua disposição cuidando de tudo para que ele se realizasse como profissional, como pai ou como marido. Fazia parte da imagem de todo grande homem ter ao seu lado uma grande mulher, só que, essa mulher precisava estar ao seu lado, sempre bonita, bem arrumada e sorridente, isto é, mostrando que estava realizada no seu papel.

Cresci vendo essa imagem na televisão, mas em casa, vi minha avó e minha mãe se mostrarem insatisfeitas por não poderem ir à luta e terem sua independência emocional e financeira. Vi minha avó então se separar e ir à luta para terminar de criar os filhos pois naquela época não existia pensão obrigatória e a mulher se saía de casa com os filhos tinha que dar conta de sustentá-los. E vi minha avó vencer criando os dez filhos sozinha e se tornarem todos grandes homens e grandes mulheres. Depois, vi minha mãe ficar viúva e ter que ir à luta também e terminar de criar os cinco filhos, também de forma vitoriosa porque mesmo ela tendo ficado só com um salário mínimo de pensão, fez com que todos estudassem e todos tivessem seu diploma de faculdade, porque ela sempre exigiu de todos que estudassem muito, tanto os meninos quanto as meninas. Inclusive a nós meninas, ela dizia: - Estudem muito, para que não venham a depender dos maridos e para que possam escolher casar ou não.

É claro que nos direcionou para as ditas profissões femininas, mas fez tudo o que pôde para nos garantir nossa profissionalização.

Assim, quando casei já tinha minha profissão e meu sustento garantido, mas meu marido deixou claro que não admitiria que eu ganhasse mais que ele. Nunca me preocupei com isto mas sempre corri atrás daquilo que considerava ser importante para minha realização pessoal e profissional.

E assim, aos poucos nosso papel de mulher foi mudando. Nós, mulheres desta geração, nossas mães e nossas avós, somos responsáveis por essas mudanças. Porque nunca nos acomodamos, nunca nos conformamos com as leis e regras do macho. Sempre ouvi as mulheres de todas as gerações reclamarem que não era justo eles serem os protagonistas da histórias e nós meras coadjuvantes. Até porque nossa forma de ver e sentir as coisas sempre foi diferente.

A geração de nossas filhas e noras hoje já chega encontrando um longo caminho percorrido, então elas já chegam determinadas e sabendo o que querem, já chegam com o direito garantido de estudar, trabalhar e buscar seu caminho de realização fora do lar e do casamento ou dentro dele. Mas já entram exigindo de seu companheiro a parceria, a divisão igualitária de responsabilidades de tarefas seja em casa, com os filhos ou com seu companheiro de trabalho, com quem competem de igual para igual.

Mas qual é então a responsabilidade que lhes cabe hoje? Penso que é a responsabilidade de se fazer respeitar, valorizar e fazer valer sua vez e sua voz.

Claro que muitos de vocês vão dizer que isto já acontece, afinal, temos uma mulher como presidente e muitas mulheres se destacando em profissões inclusive as ditas masculinas.

Mas, paralelo a isto, as mulheres pobres, as mulheres que não têm acesso ao estudo e à informação, continuam sendo submetidas, escravizadas, espancadas, prostituídas e vendidas como mercadoria. Por baixo dos panos, a cena não mudou. Ainda o macho continua impondo suas regras, como sempre apoiado na sua força física superior e na cultura que ainda valoriza o macho, branco, rico, diplomado ou não, mas macho.

Então, nesta “Semana da Mulher” é claro que festejamos toda essa caminhada e todo esse processo de emancipação da mulher. Porém, acompanhando todo esse processo ao longo da história, avaliamos que a mulher precisa ainda ganhar consciência cada vez mais de que a luta continua. Deve continuar até que possamos ver todas as mulheres, de todas as classes sociais, de todas as raças, de todos os credos, de todas as idades, sendo valorizadas e reconhecidas como seres humanos dignos de todo respeito, com sua dignidade e valor pessoal garantidos. Enquanto uma mulher ou uma criança for tratado como mercadoria nessa terra, precisamos continuar gritando e fazendo valer nossa voz.

Aliás, a Campanha da Fraternidade deste ano, está nos mostrando que isto ainda está longe de acontecer porque mesmo os homens ainda são escravizados e vendidos como mercadoria. Embora as mulheres sejam maioria, é claro que precisamos lutar também por eles.

Lutar para que o respeito à vida e ao ser humano, seja a lei universal neste planeta. Mesmo sabendo que, enquanto vivermos neste sistema em que o dinheiro e o lucro valem mais, prevalecerá a ambição e o egoísmo do homem. Acredito que a consciência desperta e o amor compaixão, um dia prevalecerão, pois hoje sabe-se que nenhum mal que o ser humano provoque a sua terra ou a sua gente, deixará de afetá-lo também. Fazer o bem e espalhar o bem faz bem e fazer o mal e espalhar o mal faz mal. Aos poucos, nós mulheres que queremos ver vencer a força do amor e da solidariedade humana, precisamos assumir nosso papel de fazer valer, em casa, no trabalho, na rua, em qualquer lugar que estejamos, nosso reconhecimento, valor e respeito, através da nossa voz, nosso trabalho e nosso engajamento nessa caminhada que precisa avançar cada vez mais.


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