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O papa para o Século 21

11 de Janeiro de 2019 - 08h40 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Cássio Furtado - Professor e jornalista

Quando o argentino Jorge Mario Bergoglio emergiu da Capela Sistina, em março de 2013, e anunciou, da sacada do Vaticano, que ele, agora papa Francisco, tinha sido o escolhido pelo Conclave, jamais esperávamos que os cardeais estivessem transformando a história de nossos tempos.

Vivemos em uma era de extremas turbulências no cenário internacional. Os últimos anos têm sido marcados por genocídios, guerras civis, conflitos étnicos e religiosos e por uma crescente intolerância mundo afora.

O papa, na atualidade, não é somente o líder dos católicos. É a figura política e diplomática mais importante dos nossos tempos.

Em 2014, Francisco assistiu, atônito, como todos nós, ao cruel bombardeio da Faixa de Gaza por Israel. Após semanas de confronto entre o exército israelense e o grupo terrorista Hamas, o saldo foi dos mais cruéis: mais de dois mil mortos e, entre eles, cerca de 500 crianças.

O papa apelou pela paz uma vez mais. Semanas antes, tinha viajado ao Oriente Médio. Em Jerusalém, a cidade sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos, clamou pelo fim dos conflitos entre árabes e israelenses e convidou os líderes de Israel e da Autoridade Nacional Palestina para diálogos no Vaticano.

Mahmoud Abbas, o líder palestino, sempre se mostrou disposto ao diálogo. Já Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense, rejeitou todos os apelos do Papa.

Em 2015, mais de um milhão de refugiados chegaram à Europa. Buscavam escapar de conflitos terríveis, como a Guerra Civil Síria, que opunha o ditador Bashar Al-Assad e seus aliados, como a Rússia e o Irã, às centenas de organizações terroristas que buscavam derrubá-lo, entre elas os grupos Estado Islâmico e Al Qaeda.

Os líderes europeus da época, como o presidente francês, François Hollande, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, fechavam as portas do continente aos migrantes.

Foi então que Francisco interveio. Conclamou a Europa para receber as famílias de refugiados. Pediu que paróquias católicas, conventos e mosteiros em todo o continente recebessem famílias inteiras. Por fim, afirmou que o próprio Vaticano abriria suas portas para receber refugiados.

Os apelos do papa e a foto do menino sírio Aylan Kurdi, morto no trajeto entre a Síria e a Grécia, comoveram o mundo. Colocaram os líderes europeus na parede. E a Europa abriu suas portas às centenas de milhares de famílias desesperadas por um novo amanhã.

Em 2017, a comunidade internacional nada fez quando o governo de Myanmar, um país asiático de maioria budista, praticou limpeza étnica com os rohingyas, uma tradicional minoria muçulmana do país.

Mais de 600 mil rohingyas foram expulsos de Myanmar. No outro lado da fronteira, em Bangladesh, foram colocados em precários campos de refugiados.

Francisco viajou à Ásia para expor a crise ao mundo. Em Bangladesh, perante um grupo de rohingyas, disse o seguinte:

“A tragédia de vocês é muito dura e grande. Em nome dos que os perseguem, que lhes fizeram mal, sobretudo em nome da indiferença do mundo, eu lhes peço perdão, perdão”.

No final de 2018, o papa encontrou-se com Moon Jae-in, o presidente da Coreia do Sul. No encontro, pediu paz e reconciliação às Coreias. Moon também levou à Francisco um convite de Kim Jong-un, o ditador norte-coreano, para visitar a Coreia do Norte em 2019.

O Papa está inserido nas principais questões globais de hoje. Ele busca, em cada uma delas, oferecer um olhar compassivo e apontar como podemos e devemos resolver as crises sem abrirmos mão de nossa humanidade.

Na Igreja Católica, Francisco tem buscado questionar e reformar as estruturas da própria igreja. No último ano, por exemplo, ele sugeriu a criação de mecanismos para acelerar a análise de denúncias de abuso sexual, algo que enfureceu os setores mais conservadores do Vaticano.

Por tudo isso, Francisco é, sem sombra de dúvidas, o maior líder político e também o grande diplomata da atualidade.

Vivemos em um período de líderes mundiais tão vazios e destituídos de carisma. Exemplos abundam. Donald Trump, nos Estados Unidos, Theresa May, no Reino Unido, Merkel, na Alemanha, e Emmanuel Macron, na França, são alguns dos mais famosos.

O papa Francisco oferece não só o carisma, mas a coerência e a empatia tão fundamentais para lidar com os problemas mais graves e persistentes de nossos tempos.


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