Opinião

O negro Rafael

06 de Agosto de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sergio Cruz Lima
sergiocruzlima@gmail.com

Ao deixar o Brasil em 1831, após a abdicação ao trono, dom Pedro I seleciona três pessoas para o atendimento de seus filhos que permanecem no país: José Bonifácio, tutor do menino Pedro, herdeiro da coroa, a condessa de Belmonte, carinhosamente apelidada de Dadama, espécie de mãe postiça, e o negro Rafael, o "Anjo Negro", veterano da Guerra da Cisplatina que o imperador mandara vir do sul e empregara no Paço de São Cristóvão.

Em Rafael, dom Pedro depositava plena confiança e sabia que a sua lealdade permitiria que tivesse olhar mais carinhoso e paternal com relação ao menino-imperador e que seria protetor incansável e abnegado. E assim foi. Rafael dormia no quarto de Pedro e evitava que ele chorasse ou se assustasse "com medo das almas do outro mundo". Dava-lhe banhos diários, zelando pela temperatura da água. Trocava-lhe a roupa e abrigava-o à noite. E a bela criança pedia ao "Anjo Negro" para contar histórias e fatos em que era fértil seu leal servidor. Certo dia, ainda na época que dona Leopoldina era viva, ela ficara enternecida ao contemplar Rafael aquecendo a mamadeira do menino-imperador. Quando dom Pedro não sabia a lição, corria para Rafael rogando-lhe para o esconder, embora sempre fosse condicionado que seria a "última vez". Por muito tempo Rafael foi o Primeiro Criado Particular do Imperador e, em todas as viagens, o acompanhava de perto. Adulto, Pedro II o ensinara a ler, escrever e falar o francês e o inglês.

A figura quase legendária de Rafael é descrita no livro O negro da Quinta Imperial, obra do gaúcho Múcio Teixeira, residente no Rio de Janeiro e falecido em 1926. O autor foi amigo de dom Pedro II e comensal do palácio por mais de 30 anos. Na obra de Múcio, destaco a seguinte passagem:

"Uma chuva miúda caíra na madrugada do dia 16 de novembro de 1889. As alamedas da Quinta Imperial estão desertas. Rafael, mal raia a aurora, abandona seus aposentos, nos baixos do torreão sul e, muito trêmulo, amparado por uma velha mas bela bengala presente de dom Pedro II, dá início ao habitual passeio matinal. Vetusto e cansado, passara o dia anterior, 15 de novembro, preso ao leito, ignorando que a República fora proclamada e que o 'seu menino', o imperador, fora destronado. Caminha devagar, ouvindo o gorjeio dos pássaros e contemplando, com olhar nostálgico, os lagos sonolentos. Fita os bosques sombrios e admira a natureza exuberante. Quantas daquelas árvores gigantescas vira nascer, florir e envelhecer!
Caminha e medita, olhando também para o passado, para a sua longínqua mocidade! Quantos sonhos desfeitos! Como é triste envelhecer, sussurra o velho pajem imperial. Ao chegar ao Portão da Coroa, já ofegante, observa com espanto os soldados que dão 'Vivas à República'. Não entende nada. Quase arrastando os pés, regressa ao Paço. Ao aproximar-se do agora solitário Palácio Imperial, Rafael vê o bibliotecário Raposo muito agitado, cabeleira revolta, andando apressadamente de um lugar para outro. Cansado e trêmulo, sempre amparado na bengala, dirige-se ao Raposo e interroga-o: 'Seu Raposo, você enlouqueceu?' Estático diante de Rafael, quase em catatonia, o bibliotecário do Paço brada: 'Rafael, você não sabe que ontem foi proclamada a República e que o 'teu menino' está preso no Paço da cidade?' Atordoado como se tivesse levado uma bordoada, Rafael deixa cair a pesada bengala de ouro e jacarandá, presente do 'seu menino', na qual a vinte anos apoiava seu corpo débil. Curvado, ergue-se, cresce... Seu olhar morto e nostálgico transfigura-se como que iluminado por estranhos clarões. Levanta o braço direito para o céu e exclama com voz sonora: 'Que a maldição de Deus caia sobre a cabeça dos algozes do ''meu menino''! Em seguida cai, rola por terra. Está morto!" Tem 99 anos. Enquanto Rafael cai fulminado, o navio Alagoas singra a baía de Guanabara e leva o "seu menino", o velho imperador dom Pedro II, para o exílio e para a morte dois anos depois.


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