Artigo

O mundo inteiro em uma praça

26 de Outubro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel, coordena o projeto de extensão Café Literário - e-mail: rittergaucho@gmail.com

Eu dirijo ouvindo Closing time a todo o volume no carro, sentindo o vento batendo em meu rosto. Pela janela, observo o mar, a praia, os biquínis, a areia, o asfalto, os carros que tentam me ultrapassar enquanto me concentro em ficar a uma boa distância do sheriff car, que me observa já há alguns minutos. A ponte é longa, a paisagem é bela e a vida pulsa por todos os cantos do planeta. Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena, já diria Fernando Pessoa no início do século 20 e já repetiria Fernanda Abreu nos anos 1990.

A cena descrita acima poderia ser relacionada tanto à viagem que fiz de Miami à Key West em 2014, quanto à narrativa de Jack Kerouac nos anos 1950 se ele estivesse ouvindo a versão de Closing time original, cantada por uma banda desconhecida hoje em dia chamada The Dogs and Cats, de Garden City (Kansas). No entanto, essa é uma réplica adaptada das várias cenas do livro escrito pelo jornalista Dodô Azevedo, Fé na estrada, publicado pela editora Casa das Palavras, em 2012. Aliás, 2012 foi a última vez em que estive na Feira do Livro de Pelotas. E foi o ano em que achei essa preciosidade da literatura beat brasileira numa das bancas que ocupavam a praça Coronel Pedro Osório.

Fiquei de 2012 até 2019 longe de Pelotas. Nesse período passei por Porto Alegre, Denver, Burgos, Santo Ângelo, Nova York (Harlem), São Borja, Chicago, Los Angeles, Frederico Westphalen, Madrid, Posadas, Milão, Fortaleza, Paris, Chapecó, Tijuana, Zurique, entre outros. Viajei fisicamente por lugares que até então só havia viajado nas páginas dos livros e morei em lugares que, até então, eu nem sabia que existiam no mapa. E é sobre livros que convido você, caro leitor, a refletir.

Estamos nos aproximando da 47ª Feira do Livro de Pelotas. Durante quase 20 dias, o mundo inteiro estará na praça Coronel Pedro Osório. Lá estarão obras de todos os tipos: poesias, romances amorosos, clássicos, histórias locais, histórias universais, ideologias de direita e de esquerda, histórias infantis, bruxas, monstros, reis, rainhas, príncipes e princesas, negros e brancos e orientais. Há espaço para todos nas páginas dos livros. Num universo tão grande, há muita porcaria também. Porém, garanto-lhes: garimpando, encontramos muito tesouro escondido.

Foi com esse espírito aventureiro, aliás, que começamos, eu, Eduardo Ritter, professor da Universidade Federal de Pelotas, e os alunos Vernihu Oswaldo Pereira Neto, Paulo Ienczak e Luma Costa, uma nova empreitada literária: estreou no último sábado, dia 19, o programa Café literário, na Rádio Federal FM. A partir de agora, todos os sábados, às 15h, estaremos conversando sobre literatura com convidados (autores, leitores, professores, apaixonados por literatura, músicos etc). Começamos com um bate-papo agradável com o livreiro, pesquisador e escritor Adão Fernando Monquelat, que há praticamente quatro décadas mantém o seu sebo em Pelotas: um ponto, não só de venda de livros, mas também de encontro de apaixonados pela literatura. Certamente repetiremos o bate-papo nos próximos meses, pois as histórias de Monquelat são infindáveis e imperdíveis. E seguimos neste sábado, 26 de outubro, com a segunda edição do programa. Desta vez a convidada é Theia Bender, organizadora da Feira do Livro de Pelotas desde 2010. Conversamos sobre a história e as perspectivas do evento, sobre o mundo que envolve adultos e crianças em Pelotas durante praticamente 20 dias no centro da cidade e muito mais. Afinal, a feira é um universo particular, um universo de sonhos, de passado, de presente e de futuro. Um universo que une vidas e visões de mundo muitas vezes antagônicas. Um universo que mostra que, antes de qualquer coisa, somos todos seres humanos dotados de todos os tipos de sentimento e de aparatos cognitivos variados.

Assim, encerro essa minha primeira coluna no Diário Popular (que sempre trará histórias, pensamentos e reflexões sobre o mundo da literatura) convidando você, caro leitor, a acompanhar o programa radiofônico e, também, a comparecer a Feira do Livro para embarcar nessa viagem sem volta, que é a viagem ao mundo da literatura! See ya!


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