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O milagreiro (II)

04 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

No domingo passado escrevi sobre o aparecimento de Grigori Yemovich Rasputin na vida de Nicolau e Alexandra, tzar e tzarina da Rússia. E descrevi o crescimento da influência do curandeiro na vida pessoal do casal imperial em razão da doença do tzarévitch Alexis. E mais: no próprio destino da nação russa, motivado pela influência danosa que Rasputin exerceu sobre a mente da imperatriz Alexandra. 

A partir de 1911, as estranhas histórias de Rasputin começaram a extrapolar os muros do Palácio de Inverno. No ano seguinte, em razão do comportamento licencioso e devasso, ele era alvo de denúncias feitas pela Duma e, em 1914, sua má fama era espalhada em artigos de jornal. A cobertura da imprensa sobre suas façanhas fez com que o milagreiro deixasse de ser apenas um favorito da corte e objeto de falatórios da elite para se transformar em um símbolo nacional, e logo também internacional, dos males e perversões do sistema. Começaram a proliferar boatos escandalosos sobre seu apetite de sexo, bebidas e geração de caos. Mas o incidente mais notório ocorreria em 1915, quando Rasputin surgiu completamente bêbado em um famoso restaurante moscovita, o Yar, acompanhado de duas mulheres. Deu início a uma briga, chamou um jornalista para testemunhar a cena e, como pièce de résistance, colocou o pênis para fora da calça, depositando-o na mesa e dizendo que poderia fazer o que bem quisesse com a "velha menina", referindo-se à tzarina. Maldosos boatos começaram a circular afirmando que ele dormia com a imperatriz e que deflorara as grã-duquesas.

Reiteradas vezes, Nicolau e Alexandra foram avisados sobre as ações de Rasputin por familiares, criados de quarto, funcionários, policiais e grandes personalidades da Igreja Ortodoxa. Mas eles se recusavam a ouvir. Haviam se tornado peritos em ignorar os que lhes diziam coisas que não queriam ouvir. Em 1915, ano do episódio acima relatado, em razão do acirramento da guerra mundial, Nicolau assumiu o comando do exército russo e o espaço vazio no governo civil do país passou a ser ocupado pela tzarina. Influenciada por Rasputin, um sinônimo de poder, devassidão e luxúria, cargos e sinecuras passaram a ser ocupados por aduladores e clientes do milagreiro, que ampliou o seu poder cada vez mais, tornando-se figura importantíssima nas decisões governamentais, embora seus indicados tenham colaborado para mergulhar o país no caos enquanto a corrupção se alastrava. Mais uma vez, embora afastado de São Petersburgo e de Moscou, dedicado ao teatro da guerra, o tzar é advertido por pessoas da sua confiança sobre a ação deletéria de Rasputin sobre a sua família e o país. Mas ele mais uma vez se manteve surdo, inclusive às aflições de sua mãe e irmãos.

Em 1916, uma vez que os avisos ao tzar eram desconsiderados, uma conspiração foi armada para a eliminação do curandeiro, que é assassinado em 17 de dezembro. Os assassinos foram o príncipe Félix Iusupov, bissexual de 29 anos praticante do travestimento e formado em Oxford, filho da mulher mais rica da Rússia e casado com Irene, uma sobrinha do tzar; o grão-duque Dmitri Pavlovich, primo de Nicolau; e Vladimir Purichkevich, monarquista antissemita de ultra direita. A ideia era salvar a monarquia russa e a nação matando Rasputin e confinando a imperatriz Alexandra em uma instituição psiquiátrica. "Não creio em ninguém, apenas em minha mulher", disse o tzar "gelidamente", após o crime, ao primo Sandro, sogro de Iusupov.


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