Opinião

O livro que não iria acontecer, aconteceu!

06 de Agosto de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Eduardo Ritter
Professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel
rittergaucho@gmail.com

Na coluna do dia 21 de maio, quando a minha vida caminhava na mais perfeita normalidade, escrevi que estava com um livro concluído, editado, revisado, pronto para sair, mas que não seria publicado por desacerto entre o meu editor e eu. Mais tarde, no dia 2 de julho, enquanto uma chuva de tijolos e concretos caía sobre a minha cabeça, comuniquei que o acerto havia acontecido e, agora, nesse agosto de tanto desgosto, em que um apocalipse toma conta do meu ser, saio das trevas para dizer: sim, o livro que não iria acontecer, finalmente aconteceu!

Dançando valsa no pagode está disponível no site da Editora Insular, de Florianópolis, ou diretamente com esse que vos escreve (com desconto). Trata-se de uma coletânea com 60 crônicas, contos e poesias que publiquei na imprensa nos últimos 15 anos (foram selecionados quatro por ano) distribuída em 224 páginas. Há crônicas sobre a minha triste e estranha sina de viver desde bebê com alergia a ovo, sobre a tentativa frustrada de trabalhar fantasiado de dentinho entregando panfletos em uma situação de desespero financeiro no centro de Porto Alegre, sobre o "nhec nhec" que os vizinhos que moravam no andar de cima faziam enquanto eu tentava escrever artigos acadêmicos no mestrado, sobre a minha passagem pelos Estados Unidos e Europa, sobre a crise dos 40 e muito mais. Também há contos, como "Amor trigêmeo", que foi o vencedor do Prêmio Machado de Assis da Academia Santo-Angelense de Letras de 2008, ou ainda o bukowskiano "Ursinho do amor". E há (poucas) poesias, como a que publiquei na coluna do dia 2 de julho.

Relendo o que escrevi, confesso que me senti um pouco mais vivo. É como se o Eu de 40 anos estivesse conversando com o Eu de 24, 28, 30 anos. No entanto, ao mesmo tempo em que me animei um pouco, também senti um pouco de melancolia: senti falta daquela animação, aquela empolgação, aquele desejo de querer conhecer o mundo inteiro sem um puto pila no bolso. Especialmente pelo momento que estou vivendo, onde tudo desmorona semana após semana, dia após dia, hora após hora, diante dos meus olhos.

Diante do caos, decidi que vou repetir a parceria com a Insular para publicar o meu primeiro romance (já escrito, mas ainda sem título). Trata-se de uma ficção inspirada na minha estadia de um ano nos Estados Unidos entre 2013-2014. Como comentei com o amigo, médico e escritor Sérgio Stangler, que leu os originais e escreveu o prefácio do Dançando valsa no pagode: "é muita bobagem para não ser compartilhada com a humanidade".

Não sei se vou conseguir escrever coisas parecidas com as que estão na coletânea de crônicas recém lançada e no romance que está por vir. Quando tudo o que você cuidou e planejou nos últimos anos desaba de uma hora para a outra, como um castelo de areia, é difícil e doloroso recomeçar, pois você sabe que qualquer vento pode derrubar tudo de novo. Tenho medo que meus textos, daqui para a frente, fiquem melancólicos, tristes, deprimentes, chatos. Por favor, não me deixem escrever esse tipo de texto. Fiquem com minhas narrativas dos bons tempos.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados