Opinião

O livro que não aconteceu

21 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Eduardo Ritter
Professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel | rittergaucho@gmail.com

Meu pai conta que, quando era mais novo, certa vez foi almoçar com o irmão dele (meu finado tio Nehemias) em Porto Alegre e não combinaram antes quem iria pagar a conta. Meu pai achou que o irmão, que o havia convidado, arcaria com as despesas. Já o meu tio, pensou que meu pai, por ser o mais velho, quitaria a fatura. Resumindo: chegou na hora de acertar o valor do almoço e eles não tinham um mísero centavo. Para não ficar lavando a louça, um esperou enquanto o outro foi lá buscar a grana. Pois tive uma situação engraçada (e ao mesmo tempo triste), semelhante a essa, com meu editor na última semana.

Faz um ano e meio que submeti ao meu editor um livro com a seleção de quatro contos/crônicas por ano na minha produção dos últimos 15 anos, totalizando exatamente 60 textos em uma obra de pouco mais de duzentas páginas. O livro foi aceito e a editora começou a trabalhar nele, exatamente como havia feito em Jornalismo Gonzo: mentiras sinceras e outras verdades, de 2018. Durante esses 18 meses, providenciei o prefácio, escrito magistralmente pelo médico e escritor Sérgio Stangler, os textos da orelha, foto da contracapa e correções. Já a editora fez todo o planejamento gráfico, que incluiu a capa, contracapa e desenho das páginas, além, dos dados catalográficos e revisão. O livrinho tava nos trinques, bem bonitinho e tal, até que meu editor me deu a tão aguardada notícia: a obra está prontinha da Silva, no ponto para ser publicada! “Ave Maria, cheia de graça, Aleluia, irmão!”, pensei, pois não aguentava mais tanta demora. Mas eis que surge o improvável desacerto entre escritor e editor.

Ele me pergunta quantas cópias vou querer comprar a preço de custo. Ora, diante da crise financeira em que estamos atolados até o pescoço, tive que ser sincero, apenas três: uma para mim, outra para a minha mãe e a última para a biblioteca da UFPel. Então ele retrucou que assim era impossível, pois não pagava nem o lançamento. Eu gostaria de ter visto minha cara de surpresa na frente do computador. Foi tipo: “what the fuck!? Óxi, óxi, óxi!!! Como ãnsim, Bial?”. Não estava entendendo nadinha de nada. Então ele me explicou: o custo passaria dos quatro dígitos e não iriam publicar sem nenhuma contrapartida minha, que deveria vir na aquisição dos meus próprios livros. Ô, mundo cruel, sempre abaixando as calças para o imponente e viril capital! Pensei no meu saldo bancário, suspirei fundo, e ainda tive forças para um novo argumento: “mas no livro do Gonzo não teve essa parada aí...”, ao que ele respondeu que a editora tem um público acadêmico forte na área do jornalismo, enquanto que na literatura...

Demorei para processar. Meu caso era mais complicado do que o do meu pai e do meu tio. O mais triste é que o título do livro tem prazo de validade: “Dançando valsa no pagode”. A valsa é uma alusão ao fato de eu ter completado 15 anos como cronista/contista na imprensa gaúcha e brasileira. Ano que vem vão ser 16 anos, ou seja, não faz mais sentido usar a palavra “valsa”. Foi então que, afogando os cornos entre um copo de cerveja e outro, tive ideia para o título da obra, se algum dia eu sair da crise ou encontrar algum editor com colhões nesse país de acovardados: “O livro que não aconteceu”. Ainda brinquei com meu editor (ou seria ex-editor?) que vai que aconteça comigo o mesmo que com John Fante ou Poe, e eu alcance a consagração literária depois de morto?

Bueno, nesse caso, já deixei as orientações com a minha filha, para que nenhum editor oportunista tire proveito para lucrar eternamente em cima do meu triste, atrapalhado, sofrido e cômico trabalho. Inclusive porque, sinceramente, depois de morto não vou ligar muito para publicações de livros... A não ser que eu encontre algum médium que aceite receber meus contos do além, mas, hoje em dia, é bem possível que ele também queira tirar uma lasquinha para isso, afinal, como me disse o porteiro de um museu na Filadélfia quando eu perguntei se a entrada era de graça: “Nothing in this world is free, man!”. So, that’s it!


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados